Sobre fins

É engraçado como nós não estamos preparados para lidar com o fim. Bem, pelo menos eu não estou. E é engraçado como nesse começo de semana eu tive que lidar com vários de uma vez.

O primeiro foi logo pela manhã de segunda, quando abro o email do trabalho e dou de cara com a notícia de que uma cliente havia falecido, foi uma parada cardíaca, e quem me avisava era o seu marido. A encomenda estava pronta há uns 15 dias, estava aguardando o retorno dela para combinar o restante do pagamento e envio da peça. Ela morreu há 20 dias, por isso não me retornava. Meus emails estavam se acumulando junto aos outros, talvez propagandas, e, nesse momento, não fazia mais diferença alguma. A morte é sempre um choque de realidade.

Ainda na segunda, fiquei sabendo que uma pessoa muita querida por todos havia falecido no último fim de semana. Meu contato com ela era pouco, mas, ainda sim, sabia o quanto era uma mulher forte e digna de admiração. Sua pequena filha é um exemplo, com apenas 13 anos já é ativa socialmente, luta pelo o que acredita e escreve poesia; alguns dias antes fora escolhida vereadora mirim e estava muito feliz pela conquista. A vida é mesmo uma caixinha de surpresa, quando menos se espera, o nosso chão balança e abre-se um abismo sob nossos pés.

Por mais que as mortes não fossem tão próximas a mim, elas sempre impactam porque esquecemos o quão frágil é a vida e porque acreditamos piamente que tudo vai ser igual amanhã – apesar de desejarmos mudanças.

Ontem, finalmente, dei o fim ao meu martírio de tirar a habilitação. Digo isso porque toda vez que sentava ao volante nas aulas, meu estômago ia no chão e revirava, minhas pernas tremiam. Ontem foi o dia de finalizar esse ciclo, passei a manhã toda me enganando dizendo que não estava ansiosa, mas a gente não consegue enganar o que o corpo sente. Por mais que eu repetisse insistentemente “não estou nervosa, hoje é o meu dia, não estou nervosa, hoje é o meu dia”, meu estômago estava enjoado o bastante para provar o contrário. Consegui realizar toda a prova (muito bem, diga-se de passagem) e fim, só esperar a minha carta chegar. Agora inicia-se outro ciclo: o de dirigir sozinha, sem um instrutor para me auxiliar. Que eu consiga superar a minha ansiedade!

Logo depois da minha prova, ao voltar ao trabalho, recebi a notícia de que meus serviços não seriam mais necessários, a vida de empregada assalariada chegara ao fim. Foi de repente, sem aviso prévio, sem chance de terminar o expediente. Foi o tempo de juntar as minhas coisas e sair, dando um tchauzinho rápido. Estava tão feliz por conseguir passar no exame prático e, quando dei por mim, estava triste por perder um emprego – pior, por não ter me preparado para perdê-lo. Não gosto quando as coisas acontecem assim tão rápido, gosto de me organizar, de saber para onde vou, anotar o que for possível, me preparar, e eu não tive tempo de captar tudo o que acontecia.

Foram fins diferentes, mas, pode até parecer clichê (e é), todos dizem uma única coisa: a vida segue. As pessoas morrem, perdem empregos, encerram ciclos e a vida continua, um dia após o outro e, quando acharmos que estamos no controle novamente, ela virá para mostrar que ninguém pode controlá-la.

Um pouco de cafuné, um dia bem dormido e pronto, hora de colocar tudo no lugar para recomeçar.

 

Eu voltei (agora pra ficar?)

Eu sempre escrevo essa mesma frase em todos os blogs que eu ameaço voltar, mas, cumprindo a profecia do universo eu nunca volto de verdade. É a vida.

Mas, eu não seria eu se eu não prometesse mais uma vez: dessa vez é de verdade, eu juro.

Ando num período tão conturbado e confuso pra mim, que sinto falta de colocar tudo pra fora (ou, melhor, vomitar tudo pra fora). Escrever sempre foi me refúgio e ter alguém que me leia e concorde comigo – ou não – aumenta o meu ego.

Ontem eu conheci o blog da Lívia Aquino e conheci uma palavra nova: hypomnemata, que acredito descrever o meu futuro propósito com o blog.

(..) um sistema de registro descrito por Foucault em A escrita de si: “Os hypomnematas caracterizam-se como cadernos pessoais, livros da vida, guias de conduta. Neles são colocadas citações, fragmentos de obras, exemplos e ações de que se tinha sido testemunha ou cujo relato se tinha lido, reflexões ou debates que se tinha ouvido ou que se tinha vindo à memoria”. Não se trata de revelar o que está oculto e sim de captar o já dito, de reunir o que se pôde ouvir ou ler dentre tantas coisas – é o oposto da ideia de informação. (Aquino, Lívia)

E, acima de tudo isso, fragmentos de mim mesma nessa eterna descoberta sobre o que é a vida e sobre o que eu sou e pretendo me tornar.

Será que mereço boas-vindas?

P.S: Ando respondendo tantos emails, que quase finalizo essa postagem com um Att.