A garota dinamarquesa

Adaptar um livro para um roteiro cinematográfico nunca é fácil, por mais que já exista a trama e as personagens, os conceitos são outros e é preciso ter em mente que o filme nunca será a tradução visual do livro – como muitos imaginam que deve ser. Enquanto o autor do romance pode inserir detalhes, enriquecendo a obra sem pensar necessariamente no tamanho final do livro, o roteirista deve estar atento ao tempo do filme, se muito longo, pode não atrair o público geral, por exemplo.

Ao ler o livro, tenho total liberdade para imaginar as cenas de acordo com o que o autor me informa e cada leitor cria esse mundo particular a partir das suas experiências. No filme, já está pronto, eu não tenho que criar nada, apenas apreciar os detalhes, por isso, muita gente se frustra ao ver adaptações no cinema. Muitas vezes é necessário pinçar apenas o importante e ir recortando e montando até ter um roteiro conciso. Em alguns casos há mudanças inexplicáveis na história (diria o fiel leitor), mas elas acontecem para dar maior fluidez ao script, claro, de acordo com os produtores do filme.

Particularmente, gosto muito de ler o livro e assistir a adaptação, analisar a diferença entre as duas obras e compreender as mudanças feitas (sim, não é à toa que minha matéria preferida era Roteiro e o meu primeiro roteiro foi uma adaptação de um conto de um amigo) e, para julgar prefiro utilizar outras questões como, por exemplo, se o sentimento do livro, permanece no filme; se a leitura é mais lenta e se o filme também é mais devagar; e o quanto o roteiro se reinventou (não acho que o filme deva ser uma cópia fiel ao livro, é uma adaptação, afinal).

Pronto, explicado meu ponto de vista, posso escrever sobre A Garota Dinamarquesa, o livro de David Ebershoff e o filme de Tom Hopper.

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Mas, ainda, antes de começar a escrever, preciso comentar que comecei a leitura com um pé atrás. Nas minhas leituras sobre Feminismo Radical, cai num texto que falava sobre o filme e acabei imaginando outra coisa sobre a obra. Ainda não sei muito bem o que achar sobre transexualidade, é um tema muito sensível, e, apesar do tema central ser exatamente esse, foram outras questões que acabei levantando durante a leitura e ao assistir ao filme.

A Garota Dinamarquesa não é uma história totalmente real, é semi-ficção, o autor se baseou em cartas enviadas para criar os diálogos e alguns acontecimentos na vida de Greta e Einar, como o filme é baseado nesse livro, ele também é semi-ficcional. A leitura é leve, o que foi uma grande surpresa, porque eu esperava algo mais arrastado, quando vi já estava totalmente imersa na história e, nos momentos em que não estava lendo, estava pensando na em Greta, Einar e em Lili, principalmente em Greta. A escolha por apresentar o passado das personagens aos poucos manteve o mistérios e a curiosidade em ler para saber mais e tornou possível a compreensão dos sentimentos de Einar.

Apesar da leitura leve, o texto é carregado de sentimento. As personagens principais são tão bem construídas e seus medos são tão bem colocados, que é impossível julgar as suas atitudes, a empatia seria a melhor reação. Embora muita gente, ao assistir ao filme, sentiu que Einar foi muito egoísta ao se transformar em Lili e Lili foi muito egoísta ao querer cada vez mais sua independência sem se importar com os sentimentos de Greta, no livro, esse sentimento é mais tênue, claro, também depende do ponto de vista do espectador/leitor. No começo, tive essa mesma sensação, mas, para que possamos nos libertar, é necessário ser um pouco egoísta, é necessário pensar em nossas necessidade, porém, isso não significa que Lili deixou de amar Greta, que sempre foi a mulher da sua vida, sua melhor amiga e sua inspiração. No filme, o amor de Einar e Greta parece ser daquele efervescente, caloroso, mas, não, o livro diz ao contrário, foi mais um encontro de almas do que algo carnal, não havia muito contato físico – e Greta sentia falta disso.

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O filme acompanha o sentimento de leveza do livro com uma fotografia espetacular, cores em tons pastéis e planos mais demorados, fazendo com que o espectador aprecie a imagem. Sou muito suspeita ao falar do filme porque se passa na década de 20, que é a minha década preferida, cheia de glamour, brilho, mulheres espetaculares e independentes. Greta é uma mulher típica da década de 20: buscava a sua independência, embora fosse de família rica, queria ser conhecida pelas suas pinturas e tinha uma visão a frente do seu tempo. Greta se apaixonou por Einar, que era seu professor na escola de artes na Dinamarca, porém, logo ela teve que retornar à Califórnia, deixando seu amor para trás. Fez o possível para retornar à Europa, tentou até mesmo um casamento, mas os planos não deram certo, ela teve que continuar nos Estados Unidos. Com o tempo, aprendeu a amar o marido, teve um filho com ele que, infelizmente, nasceu morto e, não demorou para que seu companheiro também viesse a falecer. Após a morte de seu marido, Greta finalmente voltou a Dinamarca e casou-se com Einar. O passado dela não é contado no filme, mas ajuda a entender a força que ela tinha. Por mais que ela viesse a sofrer com a transformação de Einar em Lili, foi graças a isso que ela se encontrou na pintura e atraiu olhares, caso contrário, talvez ela nunca tivesse a chance de mostrar ao mundo o seu talento. Greta e Lili se ajudaram mutuamente.

Cada vez mais envolvidos na trama, o filme nos leva a um fim trágico já esperado, a última operação não dá certo e Lili fica cada vez mais fraca até que seu corpo não aguentar. É interessante citar que no livro, o doutor responsável pela operação encontra ovários em Lili, então ele os recupera e propõe também o implante de um útero. O sonho de Lili era ser mãe, por isso aceita a ideia, mesmo sendo contrariada por Greta que não queria permitir que a fizesse pois já temia o pior. Foi nessa operação que Lili não resistiu. Não poderiam ter colocado melhor ator que Eddie Redmayne no papel de Einar/Lili, apesar das críticas por ele ser cisgênero, não consigo imaginar qualquer outro ator no lugar, ele foi realmente incrível e não consigo encontrar palavras para descrever, apenas lágrimas. Eddie e Alicia Vikander foram tão profundos quanto as personagens do livro, conseguiram mostrar todo o sentimento contido na história deles. Acredito que a adaptação do livro A Garota Dinamarquesa foi importante não só por levantar o debate sobre a transexualidade e o identidade de gênero, mas também por trazer à tona o trabalho da grande pintora que foi Greta Waud.

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Eu quero ser como Jenny Beavan

*  Na roda de amigos eu sempre sou a última a saber e/ou a comentar. Acho que deve ser porque eu acho o ritmo de informação muito frenético e nem tenho tempo de digerir tudo o que chega até mim, por isso acabo um bom tempo depois. Isso até vai virar uma categoria aqui, porque olha, faço isso com frequência. Chamarei carinhosamente de: Comentando Notícias Passadas *

Na real, eu não tenho paciência para assistir a essas apresentações, prefiro abrir a internet no dia seguinte e procurar um site que informe a lista completa de ganhadores. Esse ano fiz um pouco diferente e fui acompanhando em tempo real pela internet mesmo até dar a minha hora (porque né, não sou uma atriz de Hollywood que irá dormir até o pôr-do-sol da segunda-feira). A minha última atualização foi o prêmio de melhor figurino para Mad Max, fiquei surpresa porque tinha certeza que esse seria de Cinderella.

No dia seguinte, junto as festividades do prêmio do Léo, veio a polêmica da roupa da Jenny Beavan, que levou o Oscar de melhor figurino. Jenny subiu ao palco vestindo calça, jaqueta e botas pretas. Ela não estava de gala. Mas estava bem vestida, como ela mesma disse. E, tudo ficou pior ao ser compartilhado um GIF no qual o diretor Iñarritu e pessoas sentadas ao redor, não a aplaudiram quando foi buscar sua estatueta. Meu Deus, olha pra essa figura! Ela veio ao Oscar com essa roupa, esse cabelo, essa cara! Cadê o glamour? Jenny Beavan não foi notícia por ter ganho o prêmio, e sim pela roupa que usou para recebê-lo.

E, apesar de toda essa pressão, Beavan, permaneceu coerente ao que acredita. Ela poderia xingar muito no twitter, jogar indiretas àqueles que não a aplaudiram ou criticaram seu modo de vestir, poderia humilhá-los, afinal, esse não é seu primeiro Oscar e já fora indicada 10 vezes. Mas, não. Ela foi humilde, sensata, viu o lado positivo de tudo: “talvez eles estavam apenas cansados de aplaudir, naquele momento todos já aplaudiram demais”.

Engraçado que, sempre que uma mulher realiza algum feito, por mais espetacular que seja, se ela não estiver bem vestida, bem maquiada, magra, feliz e falar corretamente, o feito dela será ofuscado.

Mas Jenny não se sentiu intimidada, ela foi forte e me ensinou que eu também posso ser. Isso era realmente o que eu precisava aprender nesse momento.

“Eu realmente acho que as coisas vão se acalmar, mas o que eu quero é que isso gere um efeito positivo sobre como as mulheres se sentem sobre elas mesmas. Você não precisa parecer uma supermodelo para ter sucesso. Se pudermos lembrar disso, seria uma coisa ótima. É muito bom se sentir bem, porque aí você pode fazer qualquer coisa. As pessoas não precisam te aplaudir; elas não têm que gostar do seu trabalho.” (via)

Obrigada, Jenny, por me ensinar que eu não preciso dos aplausos dos outros para me manter em pé. Se eu acreditar em mim, já é um bom começo. Ficaria feliz se um dia eu puder ser como você.

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P.S: Iñarritu aplaudiu sim, mas as pessoas acharam mais interessante jogar lenha na fogueira e compartilhar o GIF mostrando-o de braços cruzados.

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