Dor.

Dor é uma coisa solitária, única, extremamente pessoal e intransferível, impossível de descrever, de falar sobre e esperar que alguém que nunca passou pela mesma situação entenda. Aliás, mesmo que alguém tenha passado por algo semelhante, ainda é difícil falar porque cada um sente diferente.

Essa foi uma semana difícil. Tudo doía, por dentro e por fora. Doía de decepção, de medo, de desespero, doía os ombros, a lombar, os pés gelados, o vento no rosto, doía sair da cama. Eu segurei tudo e ontem desabei. É, meu histórico não é muito bom.

Enquanto sentia tudo isso, lembrei-me do trabalho de uma fotógrafa chamada Elinor Carucci em que ela retrata o seu sofrimento, acredito, após um ferimento na coluna. Eu, particularmente, acho que retratar a próprio dor é algo muito complicado, mas Elinor fez isso de forma tão íntima, que eu consigo compreender a profundidade do seu sofrimento e sentir com ela.

Certa vez, li que é o sofrimento o sentimento capaz de unir as pessoas, é na dor que nos conectamos com o outro verdadeiramente. Será que estamos então perdendo a capacidade de prestar atenção no próximo, ignorando seus sinais de sofrimento ou será que cada vez mais estamos aprendendo a esconder nossos sentimentos mais tristes? Afinal, quem gosta de ficar perto de gente chorando, mesmo que por dentro? Somos obrigados a ser felizes o tempo todo.

Eu queria alguém para compreender o quanto estava difícil pra mim, sem me julgar, sem falar que eu deveria é agradecer por tudo o que eu tenho. Como não encontrei, eu gosto de olhar para Elinor, mesmo que a dor dela fosse física, é como se eu me encontrasse na dor dela e como se ela entendesse o que eu sinto.

 

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Pain 5, 2003, Elinor Carucci

 

Veja a série completa aqui.

Opte pelo trabalho de uma mulher

Acho que esse foi o dia 8 de março mais importante desde que eu me entendo por gente. Minhas leituras atuais (obrigada, queridas do meu feed) tem me obrigado a pensar em muitas questões que, por comodidade, poderia facilmente ser deixado de lado. Todo esse engajamento por um dia da mulher com a mulher como protagonista de fato está mostrando que as minas não estão aqui de brincadeira (ainda bem).

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Durante todo o dia me peguei refletindo sobre uma questão: quando penso na minha área, qual o primeiro nome que me vem à cabeça? Quando penso em fotografia, lembro de Diane Arbus, Vivian Maier, Nan Goldin, é fácil pra mim, mas são poucas em relação aos primeiros nomes que geralmente vêm a mente. E artista? Frida Kahlo, só? E diretora de cinema? Sofia Coppola é suficiente? E estilista? Moda é sempre relacionado a algo “de mulher”, porém, os homens acabam dominando esse setor também. E chef? Lugar de mulher é na cozinha, só que não na posição de chefe, não é mesmo? Agora, imagina se eu citar profissões mais “masculinas”. Pois é!  E sabe o que é pior: quando uma mulher consegue um posto de destaque na sua área, só o talento não é suficiente: precisa ser linda, bem vestida, culta, sexy sem ser vulgar (acho que já comentei isso, né?!)

Por isso acredito que internet é uma ferramenta extremamente importante para essa revolução acontecer, para mostrar que existe muita mulher fazendo coisas lindas por aí. Imagina o quanto de artista mulher foi sufocada pelo patriarcado e não pode se expressar, quanta mulher quebrou essas correntes, entretanto, não foi citada nos livros de história e teve seus trabalhos arquivados e nunca encontrados…

E, com a popularização das páginas no Facebook é possível encontrar profissionais de outras áreas, além das artísticas, mostrando o seu trabalho. Então, com esse post, proponho que, toda vez que tiver a opção de uma mulher fazer o serviço, opte por ela. Essa é uma ótima forma de empoderar e tornar o mercado mais diverso e mais justo!

Aqui no blog, sempre tento buscar por trabalhos realizados por mulheres, seja nas referências, nas ilustrações, no conteúdo ou na forma de ver o mundo. Faço isso há tanto tempo, que já se tornou algo orgânico. Espero trazer isso para a vida real com mais frequência.

Eu quero ser como Jenny Beavan

*  Na roda de amigos eu sempre sou a última a saber e/ou a comentar. Acho que deve ser porque eu acho o ritmo de informação muito frenético e nem tenho tempo de digerir tudo o que chega até mim, por isso acabo um bom tempo depois. Isso até vai virar uma categoria aqui, porque olha, faço isso com frequência. Chamarei carinhosamente de: Comentando Notícias Passadas *

Na real, eu não tenho paciência para assistir a essas apresentações, prefiro abrir a internet no dia seguinte e procurar um site que informe a lista completa de ganhadores. Esse ano fiz um pouco diferente e fui acompanhando em tempo real pela internet mesmo até dar a minha hora (porque né, não sou uma atriz de Hollywood que irá dormir até o pôr-do-sol da segunda-feira). A minha última atualização foi o prêmio de melhor figurino para Mad Max, fiquei surpresa porque tinha certeza que esse seria de Cinderella.

No dia seguinte, junto as festividades do prêmio do Léo, veio a polêmica da roupa da Jenny Beavan, que levou o Oscar de melhor figurino. Jenny subiu ao palco vestindo calça, jaqueta e botas pretas. Ela não estava de gala. Mas estava bem vestida, como ela mesma disse. E, tudo ficou pior ao ser compartilhado um GIF no qual o diretor Iñarritu e pessoas sentadas ao redor, não a aplaudiram quando foi buscar sua estatueta. Meu Deus, olha pra essa figura! Ela veio ao Oscar com essa roupa, esse cabelo, essa cara! Cadê o glamour? Jenny Beavan não foi notícia por ter ganho o prêmio, e sim pela roupa que usou para recebê-lo.

E, apesar de toda essa pressão, Beavan, permaneceu coerente ao que acredita. Ela poderia xingar muito no twitter, jogar indiretas àqueles que não a aplaudiram ou criticaram seu modo de vestir, poderia humilhá-los, afinal, esse não é seu primeiro Oscar e já fora indicada 10 vezes. Mas, não. Ela foi humilde, sensata, viu o lado positivo de tudo: “talvez eles estavam apenas cansados de aplaudir, naquele momento todos já aplaudiram demais”.

Engraçado que, sempre que uma mulher realiza algum feito, por mais espetacular que seja, se ela não estiver bem vestida, bem maquiada, magra, feliz e falar corretamente, o feito dela será ofuscado.

Mas Jenny não se sentiu intimidada, ela foi forte e me ensinou que eu também posso ser. Isso era realmente o que eu precisava aprender nesse momento.

“Eu realmente acho que as coisas vão se acalmar, mas o que eu quero é que isso gere um efeito positivo sobre como as mulheres se sentem sobre elas mesmas. Você não precisa parecer uma supermodelo para ter sucesso. Se pudermos lembrar disso, seria uma coisa ótima. É muito bom se sentir bem, porque aí você pode fazer qualquer coisa. As pessoas não precisam te aplaudir; elas não têm que gostar do seu trabalho.” (via)

Obrigada, Jenny, por me ensinar que eu não preciso dos aplausos dos outros para me manter em pé. Se eu acreditar em mim, já é um bom começo. Ficaria feliz se um dia eu puder ser como você.

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P.S: Iñarritu aplaudiu sim, mas as pessoas acharam mais interessante jogar lenha na fogueira e compartilhar o GIF mostrando-o de braços cruzados.

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