não canso de olhar #01

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Foto por Danielle Drislane

Quando eu abri o feed do meu tumblr e dei de cara com essa fotografia, não consegui parar de olhar. Meus olhos ficaram ali, fixos, admirando a beleza da modelo e as cores que se complementam.

Fiquei aqui, pensando que eu nunca conseguiria chegar num resultado tão fantástico com tão pouco. A modelo usa uma maquiagem simples e uma blusa da Ferrari, o fundo desfocado lembra um arbusto ou alguma árvore. O vermelho da blusa se equilibra perfeitamente com o verde da folhagem e a pele tem o tom perfeito e reluzente. A cor dos olhos se aproxima da cor do fundo, que acompanha o detalhe da blusa e da alça que pode ser do soutien ou de uma outra blusinha.

Apesar dos bonitos olhos, não são eles que me fazem mergulhar na foto. Talvez seja o vermelho. Ah, o vermelho sempre hipnotiza… Mas, não podemos dar o crédito apenas a isso, todo o conjunto tem uma força magnética.

E eu, não me canso de olhar.

como acabar com a sua carreira

comentando

Eu adoro acompanhar as novidades musicais, principalmente as novidades para adolescentes. Gosto dessas músicas bobinhas, com refrão chiclete e cheia de efeitos. É óbvio que eu ouço uma ou duas músicas dele, e é óbvio que o marketing musical desse nicho se fixa na beleza e não no talento, afinal coisas bonitas são mais fáceis de vender, ainda mais para adolescentes em busca de um príncipe encantado. Desde a minha adolescência é assim que funciona, aliás, desde a adolescência da minha mãe.

Mc Biel aparentemente é um garoto de classe média que teve a sorte de ganhar um investimento na carreira. Se você é um garoto que tem a sorte de nascer “bonito” e com algum dinheiro, você, provavelmente vai se achar a última bolacha do pacote. Vai estar sempre bem vestido em boas festas e, provavelmente vai conquistar muitas garotas. Tudo vai ser fácil. É preciso muito pé no chão e puxão de orelha dos pais pra mudar isso, mas, quais as chances dos pais chamar a atenção? O garoto tá fazendo o que garotos devem fazer: pegar garotas. Não importa quantas por final de semana, quanto mais melhor. Que pai não quer um garanhão? Não importa se ele respeita a garota ou não, porque “se a menina está na balada ela não se dá ao respeito mesmo”.

Você junta isso ao sucesso repentino. Dinheiro, muito dinheiro na conta, muita garota no pé, muita garota fazendo o possível pra conseguir qualquer coisa com você (e muita garota adolescente!). É óbvio que você vai se achar um rei. E vai achar que pode falar qualquer coisa pra qualquer pessoa porque você é rico, famoso, gostoso e qualquer mulher faria tudo pra ter uma noite com você. Juntando tudo isso, temos o caso do Mc Biel assediando a jornalista do IG numa entrevista que ajudaria a carreira dele a crescer mais um pouquinho, mas que ele jogou ladeira abaixo.

A culpa é a falta de talento? Não, porque poderia ser a pessoa mais talentosa do mundo que não te daria o direito de assediar alguém. A culpa é do funk? Não, não é porque você canta funk que automaticamente se torna um babaca. A culpa é o dinheiro? Também, porque eu acredito que o dinheiro é capaz de aflorar ainda mais o que a gente é por dentro.

Por um momento, eu acreditei que fosse despreparo por parte da assessoria de não atentá-lo em relação a isso, mas não, é coisa de formação de caráter mesmo. É claro que ele é culpado pelo que ele fala, porém, não só ele. É todo um histórico, uma atitude não repreendida quando criança, o ensinamento do pai pro filho, a admiração por parte das meninas que (acham que) gostam de garotos que não aceitam um não como resposta (a gente é ensinada a achar isso bonito, vai vendo). É uma cultura que está muito, muito funda em nossa sociedade e que por muito tempo era normal, mas que, felizmente as mulheres estão prontas pra dizer que não, não é normal.

O Biel foi o primeiro a assediar uma jornalista durante uma entrevista? Não, claro que não! Ele só teve o azar (risos) de encontrar uma mulher que não vai mais deixar pra lá porque “homem é assim mesmo”. Pode ser que o processo não dê em nada? Pode, afinal, só levaram a acusação a sério com os áudios vazados e, sempre que há uma oportunidade, tentam deslegitimar o discurso de uma mulher, mas seguimos na luta. Que todos os assédios sejam jogados na roda, é preciso debater, questionar, mudar, e claro, educar os meninos desde criança para que na vida adulta, não se torne refém de atitudes como essa.

E pra você que precisava de um exemplo de como a vida pode piorar, agora você tem o exemplo do Mc Biel, que depois dessa acusação teve contratos cancelados e ainda atropelou uma motociclista e negou socorro. Karma is a bitch.

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P.S: Queria colocar no texto mas não achei lugar: Felipe Neto como sempre perdeu a chance de ficar quietinho. O Biel já gravou o vídeo de desculpas, agora, aguardo ansiosamente o dia em que o Felipe Neto vai pedir desculpas pra todo mundo que ele ofendeu.

A garota dinamarquesa

Adaptar um livro para um roteiro cinematográfico nunca é fácil, por mais que já exista a trama e as personagens, os conceitos são outros e é preciso ter em mente que o filme nunca será a tradução visual do livro – como muitos imaginam que deve ser. Enquanto o autor do romance pode inserir detalhes, enriquecendo a obra sem pensar necessariamente no tamanho final do livro, o roteirista deve estar atento ao tempo do filme, se muito longo, pode não atrair o público geral, por exemplo.

Ao ler o livro, tenho total liberdade para imaginar as cenas de acordo com o que o autor me informa e cada leitor cria esse mundo particular a partir das suas experiências. No filme, já está pronto, eu não tenho que criar nada, apenas apreciar os detalhes, por isso, muita gente se frustra ao ver adaptações no cinema. Muitas vezes é necessário pinçar apenas o importante e ir recortando e montando até ter um roteiro conciso. Em alguns casos há mudanças inexplicáveis na história (diria o fiel leitor), mas elas acontecem para dar maior fluidez ao script, claro, de acordo com os produtores do filme.

Particularmente, gosto muito de ler o livro e assistir a adaptação, analisar a diferença entre as duas obras e compreender as mudanças feitas (sim, não é à toa que minha matéria preferida era Roteiro e o meu primeiro roteiro foi uma adaptação de um conto de um amigo) e, para julgar prefiro utilizar outras questões como, por exemplo, se o sentimento do livro, permanece no filme; se a leitura é mais lenta e se o filme também é mais devagar; e o quanto o roteiro se reinventou (não acho que o filme deva ser uma cópia fiel ao livro, é uma adaptação, afinal).

Pronto, explicado meu ponto de vista, posso escrever sobre A Garota Dinamarquesa, o livro de David Ebershoff e o filme de Tom Hopper.

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Mas, ainda, antes de começar a escrever, preciso comentar que comecei a leitura com um pé atrás. Nas minhas leituras sobre Feminismo Radical, cai num texto que falava sobre o filme e acabei imaginando outra coisa sobre a obra. Ainda não sei muito bem o que achar sobre transexualidade, é um tema muito sensível, e, apesar do tema central ser exatamente esse, foram outras questões que acabei levantando durante a leitura e ao assistir ao filme.

A Garota Dinamarquesa não é uma história totalmente real, é semi-ficção, o autor se baseou em cartas enviadas para criar os diálogos e alguns acontecimentos na vida de Greta e Einar, como o filme é baseado nesse livro, ele também é semi-ficcional. A leitura é leve, o que foi uma grande surpresa, porque eu esperava algo mais arrastado, quando vi já estava totalmente imersa na história e, nos momentos em que não estava lendo, estava pensando na em Greta, Einar e em Lili, principalmente em Greta. A escolha por apresentar o passado das personagens aos poucos manteve o mistérios e a curiosidade em ler para saber mais e tornou possível a compreensão dos sentimentos de Einar.

Apesar da leitura leve, o texto é carregado de sentimento. As personagens principais são tão bem construídas e seus medos são tão bem colocados, que é impossível julgar as suas atitudes, a empatia seria a melhor reação. Embora muita gente, ao assistir ao filme, sentiu que Einar foi muito egoísta ao se transformar em Lili e Lili foi muito egoísta ao querer cada vez mais sua independência sem se importar com os sentimentos de Greta, no livro, esse sentimento é mais tênue, claro, também depende do ponto de vista do espectador/leitor. No começo, tive essa mesma sensação, mas, para que possamos nos libertar, é necessário ser um pouco egoísta, é necessário pensar em nossas necessidade, porém, isso não significa que Lili deixou de amar Greta, que sempre foi a mulher da sua vida, sua melhor amiga e sua inspiração. No filme, o amor de Einar e Greta parece ser daquele efervescente, caloroso, mas, não, o livro diz ao contrário, foi mais um encontro de almas do que algo carnal, não havia muito contato físico – e Greta sentia falta disso.

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O filme acompanha o sentimento de leveza do livro com uma fotografia espetacular, cores em tons pastéis e planos mais demorados, fazendo com que o espectador aprecie a imagem. Sou muito suspeita ao falar do filme porque se passa na década de 20, que é a minha década preferida, cheia de glamour, brilho, mulheres espetaculares e independentes. Greta é uma mulher típica da década de 20: buscava a sua independência, embora fosse de família rica, queria ser conhecida pelas suas pinturas e tinha uma visão a frente do seu tempo. Greta se apaixonou por Einar, que era seu professor na escola de artes na Dinamarca, porém, logo ela teve que retornar à Califórnia, deixando seu amor para trás. Fez o possível para retornar à Europa, tentou até mesmo um casamento, mas os planos não deram certo, ela teve que continuar nos Estados Unidos. Com o tempo, aprendeu a amar o marido, teve um filho com ele que, infelizmente, nasceu morto e, não demorou para que seu companheiro também viesse a falecer. Após a morte de seu marido, Greta finalmente voltou a Dinamarca e casou-se com Einar. O passado dela não é contado no filme, mas ajuda a entender a força que ela tinha. Por mais que ela viesse a sofrer com a transformação de Einar em Lili, foi graças a isso que ela se encontrou na pintura e atraiu olhares, caso contrário, talvez ela nunca tivesse a chance de mostrar ao mundo o seu talento. Greta e Lili se ajudaram mutuamente.

Cada vez mais envolvidos na trama, o filme nos leva a um fim trágico já esperado, a última operação não dá certo e Lili fica cada vez mais fraca até que seu corpo não aguentar. É interessante citar que no livro, o doutor responsável pela operação encontra ovários em Lili, então ele os recupera e propõe também o implante de um útero. O sonho de Lili era ser mãe, por isso aceita a ideia, mesmo sendo contrariada por Greta que não queria permitir que a fizesse pois já temia o pior. Foi nessa operação que Lili não resistiu. Não poderiam ter colocado melhor ator que Eddie Redmayne no papel de Einar/Lili, apesar das críticas por ele ser cisgênero, não consigo imaginar qualquer outro ator no lugar, ele foi realmente incrível e não consigo encontrar palavras para descrever, apenas lágrimas. Eddie e Alicia Vikander foram tão profundos quanto as personagens do livro, conseguiram mostrar todo o sentimento contido na história deles. Acredito que a adaptação do livro A Garota Dinamarquesa foi importante não só por levantar o debate sobre a transexualidade e o identidade de gênero, mas também por trazer à tona o trabalho da grande pintora que foi Greta Waud.

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