as comemorações estão chegando

lembro-me de quando novembro começava e eu já ficava ouriçada planejando festas e as mil possibilidades de coisas que eu poderia fazer nas férias. fazer aniversário em dezembro, bem próximo ao natal, só aumentava em mil por centro as expectativas. quando eu comecei a namorar e sabia que o meu presente era duzentos reais em vale compras na passarela eu passava horas do dia imaginando qual sapato combinaria mais com as roupas que compraria quando eu tivesse dinheiro. só que parece que tudo isso está há anos luz de distância.

dois mil e dezoito está sendo um ano passado e não vejo perspectivas de comemorações. a família já começou a se desfazer quando minha vó ficou doente, quando ela morreu já não havia mais motivos para visitas e quando a herança foi dividida, o que aconteceu esse ano, sinto que é como se nunca tivesse tido parentes. quando eu descobri que de fato tenho fibromialgia e passe por diversas crises de ansiedade e depressão, descobri também que é como se eu nunca tivesse amigos. ok, talvez essa fosse uma constatação de outros tempo também, quem sabe até superada.

cuidar da minha sogra doente e segurar a barra com meu namorado foi pesado. mas, nunca, nunca mesmo, superará a morte dela. é como se tudo tivesse acontecido num universo paralelo. quando uma das pessoas que você mais admira se vai, é como se a vida perdesse um pouco de cor e de sentido. e eu nunca conheci alguém que gostasse mais de natal do que ela. todo lugar que eu olho eu só consigo pensar o quanto eu gostaria que ela estivesse aqui.

às vezes pessoas felizes comemorando o natal e ano novo e planejando viagens me deixa irritada. às vezes, com inveja. mas, na maioria, eu acho que faço parte de outro universo. comemorar não está fazendo mais parte do meu vocabulário.

fotografias não tiradas #01

Não estava calor. Também não estava frio. Era como se de fato o tempo estivesse parado para que o momento pudesse ser registrado. De onde eu estava, eu via todo o quintal e todas as pessoas presentes na casa. Do meu lado esquerdo, na churrasqueira, estava o marido da minha prima. A fumaça não subia a chaminé como deveria e inundava o quintal com aquele cheiro bem particular. Do telhado entrava um fecho de luz do sol mais forte que a iluminação natural da tarde de um sábado. Essa luz evidenciava a fumaça que se espalhava, fazendo com que tudo parecesse não mais que um sonho. Do outro lado, na rede, minha prima abraçava o seu filho mais velho e eles riam. Ao lado, na cadeira de balanço, meu padrinho relaxava ao som da música caipira e seu fiel escudeiro, um pinscher, tirava um cochilo. Nas outras cadeiras, minhas outras primas e minha madrinha conversavam e riam. Meus primos menores corriam em câmera lenta. O vento vira e mexe balançava as bexigas. Nesse momento, é como se todos os problemas tivessem desaparecido, tal como a fumaça que saía da churrasqueira e, aos poucos, se desfazia. Nesse exato momento, que não durou mais do que alguns segundos, tudo parecia perfeito, tudo se encaixava, inclusive eu. Me senti parte daquilo e isso me fez muito bem. Não existe nenhuma fotografia e nenhuma postagem desse recorte no tempo, mas, ele estará para sempre comigo e eu sempre me lembrarei disso com um sorriso.

As coisas não são como eram

No último domingo eu fui ao parque de diversões. Sim, esses que andam de cidade em cidade, montando e desmontando os brinquedos num looping eterno. Dessa vez, esse escolheu o terreno em frente ao supermercado. Enquanto fazíamos compras para um churrasco, joguei a ideia no ar de ir ao parque, esperando que todos topassem , por mais que achassem a ideia ridícula. Nem todo o grupo topou, não os julgo.

Então, no último domingo eu fui ao parque de diversões com meu namorado, um casal de amigos e um amigo. Sempre que passava em frente ao parque, com suas luzes ligadas, me transportava para a minha infância (talvez adolescência), quando esses parques faziam sucesso e todo mundo ia e passava as tardes inteiras indo de brinquedo em brinquedo com o “passaporte”. Isso faz quanto tempo? Acho que nove ou dez anos, mas, lembro como se fosse ontem a alegria de chegar ao parque e ver aquele monte de brinquedos enormes, em dúvida de qual seria o primeiro. Minha altura não dava pra montanha-russa, mas, tudo bem, eu tinha medo mesmo, eu só queria saber do samba e como era divertido todo mundo sentado um do lado do outro apreensivos, e então, a portinha fechava, frio na barriga, era hora de começar a diversão. Como eu adorava girar no Samba ao som de “Já é sensação“! Principalmente na parte em que fala “geral jogando a mão” e todo mundo levantava a mão sem medo de cair rolando, era muita adrenalina!

Quando eu entrei no parque nesse último domingo, não foi nada parecido com o que eu tinha nas minhas lembranças: as luzes não brilhavam tanto, os brinquedos não eram tão enormes – só alguns poucos resistiram ao tempo, e eu não sentia tanto medo assim. O parque estava praticamente vazio, somente algumas poucas crianças e os responsáveis pelos brinquedos, foi até engraçado ver 5 pessoas mais velhas querendo brincar. Ah, há quanto tempo eu não brincava no Samba! Mas, não foi a mesma coisa. Eu não estava apertada no meio das pessoas, a fila não estava grande, não tinha ninguém agitando. E então, me peguei pensando que ainda o parque vem para a minha cidade, porém, até quando? Até quando ele resistiria? Quanto a gente resiste em fazer as coisas até que a ninguém se importe mais? Ver o parque de diversões daquele jeito só me fez lembrar o quanto as coisas (e as pessoas?) tem uma vida útil, sabe, nada é pra sempre. E lembrar disso, às vezes dói.

Naquele momento, num domingo à noite, aquelas quatro pessoas eram meus melhores amigos. Eles dividiam comigo, mesmo sem saber, algumas das minhas lembranças mais bonitas da minha infância. Naquele momento, o parque decadente, era a coisa mais divertida que eu poderia estar fazendo. Naquele momento, o momento era eterno.

E, de repente, as coisas não são mais como eram.

Mas, o Samba ainda é o meu brinquedo favorito de todos os tempos.

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