Dor.

Dor é uma coisa solitária, única, extremamente pessoal e intransferível, impossível de descrever, de falar sobre e esperar que alguém que nunca passou pela mesma situação entenda. Aliás, mesmo que alguém tenha passado por algo semelhante, ainda é difícil falar porque cada um sente diferente.

Essa foi uma semana difícil. Tudo doía, por dentro e por fora. Doía de decepção, de medo, de desespero, doía os ombros, a lombar, os pés gelados, o vento no rosto, doía sair da cama. Eu segurei tudo e ontem desabei. É, meu histórico não é muito bom.

Enquanto sentia tudo isso, lembrei-me do trabalho de uma fotógrafa chamada Elinor Carucci em que ela retrata o seu sofrimento, acredito, após um ferimento na coluna. Eu, particularmente, acho que retratar a próprio dor é algo muito complicado, mas Elinor fez isso de forma tão íntima, que eu consigo compreender a profundidade do seu sofrimento e sentir com ela.

Certa vez, li que é o sofrimento o sentimento capaz de unir as pessoas, é na dor que nos conectamos com o outro verdadeiramente. Será que estamos então perdendo a capacidade de prestar atenção no próximo, ignorando seus sinais de sofrimento ou será que cada vez mais estamos aprendendo a esconder nossos sentimentos mais tristes? Afinal, quem gosta de ficar perto de gente chorando, mesmo que por dentro? Somos obrigados a ser felizes o tempo todo.

Eu queria alguém para compreender o quanto estava difícil pra mim, sem me julgar, sem falar que eu deveria é agradecer por tudo o que eu tenho. Como não encontrei, eu gosto de olhar para Elinor, mesmo que a dor dela fosse física, é como se eu me encontrasse na dor dela e como se ela entendesse o que eu sinto.

 

pain205202003
Pain 5, 2003, Elinor Carucci

 

Veja a série completa aqui.

a intimidade de Nan Goldin

Filha de uma família judia, Nan Goldin nasceu em 1953 e logo aos onze anos já teve que conviver com o suicídio de sua irmã mais velha. Para não ter o mesmo fim, aos 14 decide sair de casa e morar com famílias adotivas. Com quinze anos, seu professor lhe dá uma câmera polaroid e é no ato de fotografar que ela se encontra.

Trixie on the cot, NYC – Nan Goldin, 1979

Fotografar se torna algo compulsivo, como se a câmera fosse extensão de seu próprio corpo. Nan não queria mais perder as memórias das pessoas que amava assim como, aos poucos, perdia As de sua irmã. Nan fotografava as pessoas que amava mas não num sentido voeyur, e sim como se estivesse junto com o fotografado, dividindo os sentimentos, contando a história de seus amigos juntamento com a sua própria.

Cookie at Tin Pan Alley, NYC – Nan Goldin, 1983

“Eu não quero ser suscetível a ninguém, com outras versões da minha história. Eu não quero mais perder a memória real de ninguém novamente.” (Goldin, 1986)

Gina at Bruce’s Dinner Party, NYC – Nan Goldin, 1991

Se eu fosse escolher uma palavra para definir a obra de Nan Goldin, com certeza seria sentimento. Todas as suas fotografias são rodeadas de diversos sentimentos, mas, principalmente o amor, nas mais diversas formas. Nan amou como ninguém todas as pessoas que passaram por sua vida, pois as transformou numa família.

Nan and Brian in bed, NYC, Nan Goldin, 1983

“The Ballad of sexual Dependency”, sua obra mais importante, é um diário visual que mostra a busca incessante de Nan que tenta descobrir porque a relação entre homem e mulher é tão complicada e o que causa essa dependência de ambas as partes. Ela própria vivia um amor interdependente. Um amor, que chegou ao limite e teve graves consequências:

“Uma noite, ele me agrediu seriamente, quase me cegando. Ele queimou um certo número de meus diários. Descobri mais tarde que ele os tinha lido. Confrontando a minha normal ambivalência, havia traído sua noção absoluta de romance. Seu conflito entre seu desejo de independência e seu vício no relacionamento havia se tornado insuportável.” (Goldin, 1986)

Nan one month after being battered – Nan Goldin, 1984

Após esse episódio, Nan registrou uma de suas fotos mais famosas “Nan One Month after being battered”. Podemos perceber que mesmo depois de um mês, os hematomas ainda eram bem evidentes. Talvez fosse necessário para Nan registrar esse momento, não como prova de um crime, mas como prova da consequência que foi amar alguém.

Self-portrait, Laughing – Paris – Nan Goldin, 1999

Acredito que toda a vida de Nan foi permeada de muitos sentimentos tristes, e esse ar melancólico é visto em grande parte de suas fotografias. E isso é o que me faz aproximar de sua obra, acho que porque nos reconhecemos na tristeza, poque assim como o amor, a dor e o sofrimento também são universais, afinal, é nessas condições que nos tornamos mais humanos.


Para saber mais:

O espelho de Nan Goldin
Retratos de um relacionamento: Nan Goldin e a fotografia da vida íntima
Da porta pra dentro: Nan Goldin, Cia de Foto e as poéticas da intimidade na fotografia contemporânea