Quando Julia Child se transformou em Julia Child

Ontem eu acabei de ler o livro Julie & Julia, que conta a história de Julie Powell que vivia uma vida mais ou menos num emprego mais ou menos e, certo dia, resolveu cozinhar todas as receitas do livro de Julia Child, famosa por apresentar a culinária francesa às americanas, durante um ano e registrar tudo isso em um blog.

Há muito não lia livros como estou lendo agora (brevemente farei um ode ao kindle) e, há muito não me identificava tanto com alguém. Julie Powell poderia muito bem ser eu: formada numa carreira que poderia vir a ser sucesso, mas acaba fazendo bicos e num emprego mais ou menos, nunca consegue terminar nada que começa, casada com o seu primeiro namorado (ainda não sou casada, mas estou em vias de), num apartamento mais ou menos, sem expectativas e chegando perto dos trinta (eu to longe, no caso, mas o tempo passa e a gente nem vê). Até a síndrome que ela tem que a deixa com dificuldade de engravidar eu também tenho. Cada palavrão que ela solta no livro, cada crise existencial durante o seu projeto, cada neura, cada decepção tudo, eu me via em absolutamente tudo.

Essa leitura, fez com que viesse à tona aquele sentimento de “eu não sou capaz” e “tal pessoa é melhor que eu” que venho tendo frequentemente. Julie, várias vezes, duvidou da sua capacidade, assim como várias vezes achou que nunca seria como Julia Child. Estamos tão acostumados a ver apenas o sucesso das pessoas e, nos esquecemos o quão dolorido é se tornar alguém. Julie, às vezes, se esquecia de que Julia não sabia cozinhar, mas aprendeu, ela cometeu erros infinitos até se tornar A Julia Child. Porém, Julie se manteve forte quando a vontade de desistir era cada vez maior, até o projeto ser finalizado, deveria ser uma vitória por dia, uma passo de cada vez e, pra isso, ela descobriu que era preciso disciplina (e claro, apoio de pessoas queridas).

Parece até auto-ajuda e, se bobear até é, porque já li isso repetidamente em vários livros, mas, até agora, nenhum tinha me deixado isso tão claro. Sabe, a gente erra e errar é o que nos faz melhor, porque aí é só tentar de outro jeito. Errar não faz de mim uma pessoa pior, quem erra menos não é necessariamente melhor do que quem erra mais. Os erros e acertos fazem com que eu me torne quem sou.

Engraçado que toda essa reflexão caiu bem no dia que eu reprovei no exame de carro. Costumamos nos comparar com quem passou de primeira com quem reprovou muitas vezes e esquecemos que cada um tem o seu próprio tempo. Não significa que eu não saiba dirigir, significa apenas que, naquele momento, eu cometi um erro que simplesmente acontece no dia a dia e que ali não era aceitável. Tentarei de novo e tentarei quantas vezes forem necessárias porque preciso provar para alguém que sei dirigir. E tudo bem.

Por alguma razão, parecia-me reconfortante pensar que Julia fizera seu primeiro ovo no apartamentozinho parisiense em que morou com Paul, enquanto girava dentro de seu casulo, prestes a metamorfosear-se na nova Julia, a Julia que ela estava destinada a ser. (julie & Julia, Julie Powell, 2007)

Eu voltei (agora pra ficar?)

Eu sempre escrevo essa mesma frase em todos os blogs que eu ameaço voltar, mas, cumprindo a profecia do universo eu nunca volto de verdade. É a vida.

Mas, eu não seria eu se eu não prometesse mais uma vez: dessa vez é de verdade, eu juro.

Ando num período tão conturbado e confuso pra mim, que sinto falta de colocar tudo pra fora (ou, melhor, vomitar tudo pra fora). Escrever sempre foi me refúgio e ter alguém que me leia e concorde comigo – ou não – aumenta o meu ego.

Ontem eu conheci o blog da Lívia Aquino e conheci uma palavra nova: hypomnemata, que acredito descrever o meu futuro propósito com o blog.

(..) um sistema de registro descrito por Foucault em A escrita de si: “Os hypomnematas caracterizam-se como cadernos pessoais, livros da vida, guias de conduta. Neles são colocadas citações, fragmentos de obras, exemplos e ações de que se tinha sido testemunha ou cujo relato se tinha lido, reflexões ou debates que se tinha ouvido ou que se tinha vindo à memoria”. Não se trata de revelar o que está oculto e sim de captar o já dito, de reunir o que se pôde ouvir ou ler dentre tantas coisas – é o oposto da ideia de informação. (Aquino, Lívia)

E, acima de tudo isso, fragmentos de mim mesma nessa eterna descoberta sobre o que é a vida e sobre o que eu sou e pretendo me tornar.

Será que mereço boas-vindas?

P.S: Ando respondendo tantos emails, que quase finalizo essa postagem com um Att.