quando uma amizade acaba

falando

O tempo todo a gente tem amizades se desfazendo, mas, a gente não liga muito, porque elas vão se desfazendo aos poucos até que num certo momento percebemos o quão distante estamos e bem, deixamos assim, até porque alguém já entrou no lugar dessa pessoa mesmo. E nada de receios, a vida é assim mesmo.

Daí as redes sociais vieram complicar um pouco essa dinâmica: você não consegue se distanciar o suficiente de alguém, sempre existirá um curtir aqui, um comentário acolá, uma a data a ser lembrada. Sempre haverá um resquício de contato.

E então, veio as eleições e o ódio se instaurou em todas as redes sociais. E, aos poucos, fomos percebendo o que são as pessoas. Uma ótima desculpa para se desfazer daqueles que a gente gostava mais ou menos (ou adicionou por acaso) e que você acabou de descobrir que apoia o Bolsonaro (ou o Jean Wyllys, vai saber). Tem até aqueles que não é legal desfazer a amizade pra não rolar torta de climão, mas que é só parar de seguir. Eu fiz isso. Fiz muito disso. Quem nunca?

Dia desses, estava distraída rolando a timeline do meu facebook quando percebi que há muito não tinha notícias de uma amiga. Bem, nunca se sabe, o facebook vive mudando seus algoritmos, então achei melhor entrar no perfil dela e BUM (não sei se essa onomatopeia ficou boa, mas precisava de uma): nós não éramos mais amigas no facebook!

Fiquei chateadíssima.

Poxa vida, ela é uma pessoa muito querida pra mim. Quando ninguém gostava dela no curso, eu tava lá, do lado dela. Tínhamos o mesmo gosto musical, a mesma posição política, eu não encho a minha timeline de besteira (será?, hihi). Por que será que ela desfez a amizade? Como que ela chegou a esse ponto?

Fiquei dias pensando a respeito. Não tinha noção de como isso é dolorido. Se fosse alguém que eu mal conheço, tudo bem, acontece. Mas, não. Prefiro pensar que ela resolveu deixar só parentes e amigos íntimos, assim, me sinto menos pior.

A vida real é bem mais sutil.

Fotografias não tiradas

Numa das minhas andanças por artigos de fotografia, acabei encontrando uma resenha bem simples sobre um fotógrafo que fez um livro descrevendo as fotografias que ele não tirou. Acabei passando e não peguei o nome dele nem do livro, mas essa coisa de fotografias não tiradas anda me perseguindo o tempo todo.

Nem todas as fotografias são tiradas para que todos as vejam, algumas, são tiradas para ficar apenas na memória de quem (não) a tirou.

No meu caminho para o terminal de ônibus há uma placa de “pare”, junto com ela, no mesmo buraco há um pezinho de hibisco. Sempre que eu passava por lá, o pezinho estava todo florido. Lindo. Vou registrar, mas não hoje, porque tem gente na rua. Não hoje porque tô com pressa. Não hoje.

Quando decidi tirar a fotografia, podaram as flores.

Também no meu trajeto, descobri uma porta, daquelas de comércio, sabe. Ela era amarela e, bem no meio, estava escrito “garagem” em letras de estêncil. Um charme. Agora não posso registrar esse achado porque vão me achar louca. Amanhã eu tiro.

No outro dia, pintaram a porta.

Ainda no meu caminho, bem na esquina da avenida, tem uma casa antiga. Pelos portões de grade de ferro, as folhagens saltam e invadem majestosamente a calçada. Vez ou outra aparece umas florzinhas azuis, mas não é necessário, os galhos são graciosos os suficientes. Todos os dias me apaixono. Hoje desci do ônibus decidida a fotografar.

Cortaram os galhos.