a teoria de tudo

Essa semana eu finalizei o livro “A Teoria de Tudo”, escrito por Jane Hawking, esposa do famoso cientista Stephen Hawking. A obra conta em detalhes a vida da família desde o momento em que os dois se conheceram até o momento da separação do casal. Aproveitei também e assisti ao filme, para completar o que eu havia lido – como já disse, acho que filmes baseados em livros são um complemento, uma visão diferente (geralmente do diretor) daquilo que eu imaginei ao ler, adicionando outro tipo de experiência e ampliando o entendimento da obra.

7a8a94c3a30f1f410218183233595027

O livro, é bem entendiante em alguns momentos porque Jane discorre muito sobre assuntos como física e poesia medieval, que é tema de seu doutorado, por isso, o livro demora um pouco a tomar forma e, só do meio pro fim que a leitura começa a fluir. Mas, vale a pena chegar até o final, mesmo que com uma leitura arrastada, porque os relatos vão dar uma visão totalmente diferente do grande mito da ciência.

O filme é belíssimo, porém, raso. Decidiram colocar apenas a parte boa da história (claro), não dando a importância necessária para os problemas enfrentados (que não são poucos), ou seja, eles existem mas logo são superados, o que deixa o filme bem linear, sem picos de tensão. É como se a vida fosse fácil, apesar de tudo e que o amor sempre vence, coisa típica de Hollywood – embora seja um filme britânico -, o que todos sabemos que não é verdade, a vida nunca é fácil.

c50571fa3d67e37dbb6a8b0e3b75f322

A vida de Stephen Hawking é bem conhecida pela sua colaboração para a física e por superar a doença do neurônio motor – doença degenerativa que afeta os neurônios responsáveis pela atividade muscular voluntária, paralisando os músculos do corpo -, quando, a sua expectativa de vida era de apenas 2 anos ao receber o diagnóstico aos 21 anos. Porém, a vida de Jane passa quase despercebida, quando não é julgada por ser uma traidora e desmerecedora do amor de Stephen.

Jane sabia da doença de Stephen e, mesmo assim, não o abandonou, prometeu que enfrentariam a doença juntos e aproveitariam o tempo que tivessem um ao outro. Superando todas as expectativas, Stephen sobreviveu a doença, porém, era cada vez mais difícil tomar conta dele que exigia muitos cuidados e atenção e ainda cuidar da casa e dos filhos. Jane que era linguista por formação, foi se anulando para que a estrela de Stephen pudesse brilhar, ela era responsável pelas papeladas, pelas reformas, acompanha o cientista em incontáveis viagens ao exterior para conferências e premiações e o único apoio vinha dos seus pais e de amigos próximos. Somente quem cuida de alguém doente sabe o quanto é uma função desgastante.

7bf8dd8a942dbce27036c20444fcfd0f

Tentando buscar um alívio para a pressão, Jane entrou para o coral da igreja, onde conheceu Jhonatan, professor de música, que logo passou a dar aulas de piano para as crianças e timidamente começou a ajudar na rotina da casa, até mesmo dos cuidados com Stephen, que até então nunca havia aceitado ajuda. Jane estava sozinha, não sabia mais nem quem ela era e Stephen parecia não se importar com ela, apenas reinvindicava atenção, nesse momento Jhonatan foi um bálsamo em sua vida, e não seria estranho se ela começasse a nutrir sentimentos por ele. Quando Stephen ficou entre a vida e a morte, passando dias no hospital e exigindo ainda mais de Jane, Jhonatan se mudou para a casa dos Hawking e ajudou a manter tudo em ordem, cuidando das crianças e da casa.

É nesse momento que a polêmica começa, familiares por parte de Stephen julgavam a todo momento e, até hoje, as pessoas julgam. Nem no livro nem no filme fica claro se houve relações sexuais entre Jane e Jhonatan, porém, fica claro que Stephen aceitava a presença de Jhonatan. E, mesmo que houvesse relações, não acredito que foi traição por parte de Jane. Ela estava sozinha e Stephen não conseguia mais suprir as necessidades dela, e não só no quesito sexual, mas no quesito de atenção, carinho, palavras inspiradoras e apoio emocional, ele só conseguia pensar na Física e em receber as suas glórias. Jane nunca o abandonou, ele era prioridade em sua vida e ela cumpriu o prometido de cuidar dele e nunca iria deixar de cuidar. Amor não é só amar incondicionalmente uma pessoa e ser devota unicamente a ela pelo resto da vida, é possível amar de maneiras diferentes. Jane teve a vida de Stephen em suas mãos e, apesar de tudo, escolheu que ele tivesse a chance de continuar vivendo e, se isso não é amor, eu realmente não sei o que é amar. É interessante pensar se fosse ao contrário, a justificativa de traição seria simplesmente porque “o homem tem suas necessidades” e ele não seria julgado, afinal é uma coisa normal, “eu faria o mesmo”.

68386d9bc696a1340073bbe0f545c83b

Com o tempo, Stephen foi precisando de mais cuidados e foi necessária a contratação de enfermeiros em tempo integral. Uma das enfermeiras acabou conquistando Stephen, talvez colocando caraminholas na cabeça dele a respeito de Jane e Jhonatan, por mais gênio que um homem seja, não suporta se sentir inferior. Stephen pediu o divórcio a Jane e se casou com a enfermeira. Ao ler essa passagem, senti como se tudo o que Jane fez não valesse nada, veja, é muito fácil se sentir atraído por alguém que tem todas as atenções voltadas pra você boa parte do tempo porque esse é simplesmente o seu serviço, o difícil é compreender que a outra pessoa também precisa de uma vida, de amigos, de hobbies, que é preciso cuidar da casa, dos filhos e, eventualmente, dos pais. Isso que acontece muito dentro dos lares: o homem esquece a mulher incrível que tem em casa porque ela não está bonita e arrumada em tempo integral ou porque não está ao seu serviço 24 horas por dia, nem um gênio conseguiu ser diferente.Entretanto, prefiro pensar que ele quis dar um alívio a Jane para que ela pudesse ser feliz (?) com alguém que não exigisse tanto dela.

A garota dinamarquesa

Adaptar um livro para um roteiro cinematográfico nunca é fácil, por mais que já exista a trama e as personagens, os conceitos são outros e é preciso ter em mente que o filme nunca será a tradução visual do livro – como muitos imaginam que deve ser. Enquanto o autor do romance pode inserir detalhes, enriquecendo a obra sem pensar necessariamente no tamanho final do livro, o roteirista deve estar atento ao tempo do filme, se muito longo, pode não atrair o público geral, por exemplo.

Ao ler o livro, tenho total liberdade para imaginar as cenas de acordo com o que o autor me informa e cada leitor cria esse mundo particular a partir das suas experiências. No filme, já está pronto, eu não tenho que criar nada, apenas apreciar os detalhes, por isso, muita gente se frustra ao ver adaptações no cinema. Muitas vezes é necessário pinçar apenas o importante e ir recortando e montando até ter um roteiro conciso. Em alguns casos há mudanças inexplicáveis na história (diria o fiel leitor), mas elas acontecem para dar maior fluidez ao script, claro, de acordo com os produtores do filme.

Particularmente, gosto muito de ler o livro e assistir a adaptação, analisar a diferença entre as duas obras e compreender as mudanças feitas (sim, não é à toa que minha matéria preferida era Roteiro e o meu primeiro roteiro foi uma adaptação de um conto de um amigo) e, para julgar prefiro utilizar outras questões como, por exemplo, se o sentimento do livro, permanece no filme; se a leitura é mais lenta e se o filme também é mais devagar; e o quanto o roteiro se reinventou (não acho que o filme deva ser uma cópia fiel ao livro, é uma adaptação, afinal).

Pronto, explicado meu ponto de vista, posso escrever sobre A Garota Dinamarquesa, o livro de David Ebershoff e o filme de Tom Hopper.

tumblr_o3pjxzwqe71ugir7ro2_1280

Mas, ainda, antes de começar a escrever, preciso comentar que comecei a leitura com um pé atrás. Nas minhas leituras sobre Feminismo Radical, cai num texto que falava sobre o filme e acabei imaginando outra coisa sobre a obra. Ainda não sei muito bem o que achar sobre transexualidade, é um tema muito sensível, e, apesar do tema central ser exatamente esse, foram outras questões que acabei levantando durante a leitura e ao assistir ao filme.

A Garota Dinamarquesa não é uma história totalmente real, é semi-ficção, o autor se baseou em cartas enviadas para criar os diálogos e alguns acontecimentos na vida de Greta e Einar, como o filme é baseado nesse livro, ele também é semi-ficcional. A leitura é leve, o que foi uma grande surpresa, porque eu esperava algo mais arrastado, quando vi já estava totalmente imersa na história e, nos momentos em que não estava lendo, estava pensando na em Greta, Einar e em Lili, principalmente em Greta. A escolha por apresentar o passado das personagens aos poucos manteve o mistérios e a curiosidade em ler para saber mais e tornou possível a compreensão dos sentimentos de Einar.

Apesar da leitura leve, o texto é carregado de sentimento. As personagens principais são tão bem construídas e seus medos são tão bem colocados, que é impossível julgar as suas atitudes, a empatia seria a melhor reação. Embora muita gente, ao assistir ao filme, sentiu que Einar foi muito egoísta ao se transformar em Lili e Lili foi muito egoísta ao querer cada vez mais sua independência sem se importar com os sentimentos de Greta, no livro, esse sentimento é mais tênue, claro, também depende do ponto de vista do espectador/leitor. No começo, tive essa mesma sensação, mas, para que possamos nos libertar, é necessário ser um pouco egoísta, é necessário pensar em nossas necessidade, porém, isso não significa que Lili deixou de amar Greta, que sempre foi a mulher da sua vida, sua melhor amiga e sua inspiração. No filme, o amor de Einar e Greta parece ser daquele efervescente, caloroso, mas, não, o livro diz ao contrário, foi mais um encontro de almas do que algo carnal, não havia muito contato físico – e Greta sentia falta disso.

tumblr_o3h94lqkac1t47iexo3_1280

O filme acompanha o sentimento de leveza do livro com uma fotografia espetacular, cores em tons pastéis e planos mais demorados, fazendo com que o espectador aprecie a imagem. Sou muito suspeita ao falar do filme porque se passa na década de 20, que é a minha década preferida, cheia de glamour, brilho, mulheres espetaculares e independentes. Greta é uma mulher típica da década de 20: buscava a sua independência, embora fosse de família rica, queria ser conhecida pelas suas pinturas e tinha uma visão a frente do seu tempo. Greta se apaixonou por Einar, que era seu professor na escola de artes na Dinamarca, porém, logo ela teve que retornar à Califórnia, deixando seu amor para trás. Fez o possível para retornar à Europa, tentou até mesmo um casamento, mas os planos não deram certo, ela teve que continuar nos Estados Unidos. Com o tempo, aprendeu a amar o marido, teve um filho com ele que, infelizmente, nasceu morto e, não demorou para que seu companheiro também viesse a falecer. Após a morte de seu marido, Greta finalmente voltou a Dinamarca e casou-se com Einar. O passado dela não é contado no filme, mas ajuda a entender a força que ela tinha. Por mais que ela viesse a sofrer com a transformação de Einar em Lili, foi graças a isso que ela se encontrou na pintura e atraiu olhares, caso contrário, talvez ela nunca tivesse a chance de mostrar ao mundo o seu talento. Greta e Lili se ajudaram mutuamente.

Cada vez mais envolvidos na trama, o filme nos leva a um fim trágico já esperado, a última operação não dá certo e Lili fica cada vez mais fraca até que seu corpo não aguentar. É interessante citar que no livro, o doutor responsável pela operação encontra ovários em Lili, então ele os recupera e propõe também o implante de um útero. O sonho de Lili era ser mãe, por isso aceita a ideia, mesmo sendo contrariada por Greta que não queria permitir que a fizesse pois já temia o pior. Foi nessa operação que Lili não resistiu. Não poderiam ter colocado melhor ator que Eddie Redmayne no papel de Einar/Lili, apesar das críticas por ele ser cisgênero, não consigo imaginar qualquer outro ator no lugar, ele foi realmente incrível e não consigo encontrar palavras para descrever, apenas lágrimas. Eddie e Alicia Vikander foram tão profundos quanto as personagens do livro, conseguiram mostrar todo o sentimento contido na história deles. Acredito que a adaptação do livro A Garota Dinamarquesa foi importante não só por levantar o debate sobre a transexualidade e o identidade de gênero, mas também por trazer à tona o trabalho da grande pintora que foi Greta Waud.

AppleMark

Quando Julia Child se transformou em Julia Child

Ontem eu acabei de ler o livro Julie & Julia, que conta a história de Julie Powell que vivia uma vida mais ou menos num emprego mais ou menos e, certo dia, resolveu cozinhar todas as receitas do livro de Julia Child, famosa por apresentar a culinária francesa às americanas, durante um ano e registrar tudo isso em um blog.

Há muito não lia livros como estou lendo agora (brevemente farei um ode ao kindle) e, há muito não me identificava tanto com alguém. Julie Powell poderia muito bem ser eu: formada numa carreira que poderia vir a ser sucesso, mas acaba fazendo bicos e num emprego mais ou menos, nunca consegue terminar nada que começa, casada com o seu primeiro namorado (ainda não sou casada, mas estou em vias de), num apartamento mais ou menos, sem expectativas e chegando perto dos trinta (eu to longe, no caso, mas o tempo passa e a gente nem vê). Até a síndrome que ela tem que a deixa com dificuldade de engravidar eu também tenho. Cada palavrão que ela solta no livro, cada crise existencial durante o seu projeto, cada neura, cada decepção tudo, eu me via em absolutamente tudo.

Essa leitura, fez com que viesse à tona aquele sentimento de “eu não sou capaz” e “tal pessoa é melhor que eu” que venho tendo frequentemente. Julie, várias vezes, duvidou da sua capacidade, assim como várias vezes achou que nunca seria como Julia Child. Estamos tão acostumados a ver apenas o sucesso das pessoas e, nos esquecemos o quão dolorido é se tornar alguém. Julie, às vezes, se esquecia de que Julia não sabia cozinhar, mas aprendeu, ela cometeu erros infinitos até se tornar A Julia Child. Porém, Julie se manteve forte quando a vontade de desistir era cada vez maior, até o projeto ser finalizado, deveria ser uma vitória por dia, uma passo de cada vez e, pra isso, ela descobriu que era preciso disciplina (e claro, apoio de pessoas queridas).

Parece até auto-ajuda e, se bobear até é, porque já li isso repetidamente em vários livros, mas, até agora, nenhum tinha me deixado isso tão claro. Sabe, a gente erra e errar é o que nos faz melhor, porque aí é só tentar de outro jeito. Errar não faz de mim uma pessoa pior, quem erra menos não é necessariamente melhor do que quem erra mais. Os erros e acertos fazem com que eu me torne quem sou.

Engraçado que toda essa reflexão caiu bem no dia que eu reprovei no exame de carro. Costumamos nos comparar com quem passou de primeira com quem reprovou muitas vezes e esquecemos que cada um tem o seu próprio tempo. Não significa que eu não saiba dirigir, significa apenas que, naquele momento, eu cometi um erro que simplesmente acontece no dia a dia e que ali não era aceitável. Tentarei de novo e tentarei quantas vezes forem necessárias porque preciso provar para alguém que sei dirigir. E tudo bem.

Por alguma razão, parecia-me reconfortante pensar que Julia fizera seu primeiro ovo no apartamentozinho parisiense em que morou com Paul, enquanto girava dentro de seu casulo, prestes a metamorfosear-se na nova Julia, a Julia que ela estava destinada a ser. (julie & Julia, Julie Powell, 2007)