quando finalmente voltará a ser como nunca foi

falandosobrelivros

Quando peguei esse livro pra ler, tinha acabado de sair de duas biografias praticamente consecutivas: uma bem pesada, que é a da Clarice e uma bem leve, que é a da Rita Lee. Por mais que esse livro não seja uma biografia verdadeira, ele tem as características de uma, com detalhes ricos e muito próximos da realidade.

Ao começar a história, já vamos procurando o fio condutor da trama – algo comum em muitos leitores, afinal, ninguém gosta de ficar perdido na leitura, ainda mais num livro que começa misterioso e possui uma capa tão convidativa. Mas, mesmo formulando mil e uma teorias, ao chegar no segundo capítulo tudo cai por terra e, ainda atordoada, é possível perceber que se trata de um livro de memórias. E, a cada caso contado vamos nos aproximando mais e mais da família de Joachim, o narrador em primeira pessoa.

Apesar de descrever poucas características das personagens – a não ser do pai – a imagem de todos da casa vai se formando como se, realmente, eles existissem. Mas, será que não existem mesmo? Cada dor, cada felicidade, cada momentos juntos e até os momentos de burrice ou de fúria se assemelham a qualquer outra família. Talvez, seja por isso que o ator suprime algumas características: assim, podemos ter uma construção particular.

Assim como na vida, o livro passa por partes lentas, em que a leitura se arrasta e dá vontade de desistir, tal qual uma segunda-feira mal dormida ou um período sombrio. Porém, também há partes em que a leitura flui rapidamente, como um domingo de sol ou aquela viagem desejada. Outra característica marcante é o fato de que, muitas vezes, não há explicação para o que aconteceu exatamente porque, na vida, existem coisas que simplesmente acontece e não há o que explicar. Tomamos decisões sem sentido, contrariamos a razão e, nem sempre esclarecemos os motivos, porque nem sempre há motivos. Isso é tão explícito no livro que acredito ter feito muita gente desistir da leitura, sempre queremos saber de tudo, mas tudo é muito coisas para se saber. As coisas simplesmente acontecem. Ao ler esse livro, ficou ainda mais claro na minha cabeça que é assim que a vida funciona. Só nos resta aceitar.

Não, o livro não é real, mas bem que poderia ser. Assim como a vida de cada um poderia ser um livro. A linha que separa a ficção da realidade é muito tênue.


Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi
Joachim MeyerHoff
352 páginas. 2016

depois a louca sou eu

falandosobrelivros

Meu contato com a Tati Bernardi não ia além de algumas frases aleatórias na internet (que podem ser dela ou não) e um ou outro texto aleatório. Não sei exatamente o que me chamou a atenção para o seu último lançamento, “Depois a Louca Sou Eu”, talvez tenha sido a capa, talvez o resumo do livro alertando sobre o fato de ela relatar suas crises de ansiedade (eu estou procurando muito sobre isso nesse momento) ou talvez por estar procurando uma leitura leve e esse livro apareceu primeiro. Não sei.

Mas, a leitura leve eu errei, ficou para o próximo.

Eu sai de um livro que fala sobre crises que foi totalmente raso (sim, o da Jout Jout) para cair em um super denso que é o da Tati Bernardi.

Os primeiros capítulos são pesados, ela narra as suas crises, todas elas, e todos os possíveis motivos que levam a crise. Nesse momento, ou você se aproxima dela se identificando com os sintomas ou tendo compaixão ou abandona de vez o livro. Por mais que ela dê os respiros e transforma situações trágicas em algo relativamente cômico, não é suficiente dissipar toda a tensão das primeiras páginas. Com o passar da leitura, vai ficando mais leve, porém, ainda não sei se ela que maneirou na escrita ou se eu me acostumei.

Há uns anos, fui diagnosticada com começo de depressão e é bem estranho isso porque não me levaram para um terapeuta, me deram remédios que não adiantaram muito. Eu parei de tomar porque não queria mais, porém, nunca voltei a ser eu. Em minhas memórias, tenho uma visão de uma Letícia espontânea, sem medo de falar o que pensa, que vai ao público sem problemas, e que se arrisca sem medo, só que hoje eu não sou assim, há uns anos não sou mais assim e não sei dizer exatamente quando tudo mudou. Hoje eu tenho manias absurdas, medos sem explicação, crises só de pensar em mudar a rotina e o tempo todo eu me ouço falar que está tudo bem comigo que vai passar. Ninguém compreende muito bem essa situação porque é algo tão íntimo e a gente se vê tão sozinha. Possivelmente eu preciso de um acompanhamento, mas não tenho condições de pagar (e as pessoas ao meu redor não acreditam muito nisso), então a gente vai se virando como pode.

A forma como a Tati Bernardi expõe me aproximou muito dela, e eu percebi que aquela vez que eu vomitei na porta inteira d’O Boticário no meu primeiro dia de trabalho não era virose, era uma crise de ansiedade; que não é normal meu estômago ir parar no chão toda vez que eu precise falar com alguém ou dirigir, por exemplo; que se perder é normal e que eu não preciso ficar revisando o caminho na minha mente o tempo todo sem aproveitar o passeio porque só a ideia de me perder me causa enjoos. Ler algo tão abertamente (tá, e um pouco exagerado, às vezes, como ela mesma coloca) fez com que eu não me sentisse tão sozinha, que cada um tem a sua loucura e tudo bem. Talvez eu me sinta muito mais à vontade para compartilhar minhas neuras e aliviar um pouco tudo aqui dentro.

Depois da leitura, por acaso, encontrei a entrevista que ela deu para o Jô e, quem a vê, ali, tranquila e espontânea, não imagina o que se passa por dentro dela. O mesmo comigo, olhando de fora, a minha pose é outra, mas por dentro, estou corroendo meu estômago – isso quando ele não está fazendo cosplay de máquina de lavar, claro.

Se você nunca teve problemas ligados a ansiedade ou depressão, talvez não se identifique com o livro, por mais que ainda tenha uma comicidade nos relatos (depois que passa até parece engraçado), porém, se você os tiver, a leitura será como um alívio.


Depois a Louca Sou Eu
Tati Bernardi
Companhia das Letras

tá todo mundo mal, inclusive eu

resenha

Eu não estou entendendo muito bem essa onda de livros de youtubers. Não sei se é a idade ou o fato de eu não acompanhar nenhum canal (é, talvez seja esse motivo). Mas, como eu estava procurando uma leitura leve, resolvi arriscar e ler o livro da Jout Jout porque 1. ela é a única youtuber que eu de fato conheço, 2. ela quebra alguns padrões e consegue falar sobre qualquer coisa.

Quando a gente começa a ler e-books, a percepção do tamanho do livro é bem diferente, como o livro físico não está em nossas mãos, não temos noção da “grossura” da obra, podemos saber a quantidade de páginas se pesquisar na internet, mas não é a mesma coisa – o que eu acho acho bom, porque não enfrentaria alguns livros se eu os tivesse em mãos – por isso, eu acabo definindo o tamanho do livro pela fluidez da leitura. Livros com escrita envolvente, história e/ou personagens marcantes, por exemplo, são devorados rapidamente, dando a impressão de serem mais “curtos”; já obras com muitas datas, detalhes, dados históricos e biografias, tendem a ter uma leitura mais arrastada, tornando-os mais “longos”.

“Tá Todo Mundo Mal” é um desses livros que eu chamaria de curto, porque a leitura é leve e engraçado, assim como é Jout Jout em seus vídeos. Dependendo do seu percurso de ônibus casa/trabalho/escola (eu geralmente leio nesses momentos), é possível terminá-lo em um ou dois dias; ou se preferir, acredito ser possível terminá-lo enquanto espera a sua consulta médica. Se você acompanha o canal, consegue ouvir a voz da Julia narrando as crônicas. Aliás, acho que é um livro para quem conhece Jout Jout (assim como todos os outros livros de youtubers, imagino), se alguém que é por fora desse mundo resolver lê-lo talvez fique perdida em alguns momentos ou até mesmo ache o livro ruim – ou esse alguém pode gostar da leitura mesmo assim e virar fã assíduo do canal, vai saber.

Eu compreendo o propósito do livro que é falar sobre crises. Todo mundo tem crises por diversos motivos e é normal tê-las. Eu não sou pior por ter crises, é preciso assumi-las, compreendê-las e bola pra frente. É legal conhecer um pouco mais de Julia Tolezano, saber o que ela pensa sobre alguns assuntos que, talvez, nem foram abordados no vlog, ela escreve bem, é engraçada, uma ótima companhia, quebra padrões de beleza e fala sobre coisas que muita gente se sente desconfortável em falar, como por exemplo: puns.

Entretanto, algo me incomodou durante toda a leitura: apesar de me identificar com muitas crises narradas (afinal, muitas delas é sobre “o que ser quando crescer” e inseguranças, que são, basicamente, as neuras do momento), eu não me encontrei em Jout Jout . Ela é como a grande parte de youtubers: classe média, teve oportunidade de estudar em boas escolas, fez uma boa faculdade particular, fala inglês fluente, não precisava se sustentar. Não estou falando sobre talento, mas em ter tempo e investimento para começar qualquer coisa de internet seja um blog ou um vlog. É claro que hoje as novas tecnologias estão mais acessíveis, mas não é só isso. É claro que é preciso estar afim de fazer acontecer acima de tudo, mas não é só isso. O dinheiro conta, o tempo de ócio conta, a formação, não me refiro a acadêmica, conta. Talvez há um ou outro youtuber ou blogger de classe baixa, mas a maioria não e é esse ponto que me incomoda: o poder de comunicação vai estar sempre nas mãos de quem tem maior valor aquisitivo. Mudaram-se os tempos e os ídolos, porém, o status quo permanece.

Engraçado eu ter essa “crise” ao ler o livro da Jout Jout, quer dizer, era um assunto que eu vinha cozinhando há um tempo, mas que ficou claro ao terminar de ler “Tá Todo Mundo Mal”, porque, por mais que Julia seja simples e humilde, a realidade dela é outra. Não estou desmerecendo ou questionando a pessoa que ela é ou o que ela conseguiu, principalmente com o vídeo “não tira o batom vermelho”, nem onde e como ela chegou, ela é incrível e ponto. A questão que me incomoda, principalmente como comunicadora, é que ainda estamos longe de ter mídia e informação acessível pra todo mundo, algumas vozes ainda são mais altas que outras, e isso acontece na televisão, nas revistas, no rádio, na internet e nas livrarias.