Dor.

Dor é uma coisa solitária, única, extremamente pessoal e intransferível, impossível de descrever, de falar sobre e esperar que alguém que nunca passou pela mesma situação entenda. Aliás, mesmo que alguém tenha passado por algo semelhante, ainda é difícil falar porque cada um sente diferente.

Essa foi uma semana difícil. Tudo doía, por dentro e por fora. Doía de decepção, de medo, de desespero, doía os ombros, a lombar, os pés gelados, o vento no rosto, doía sair da cama. Eu segurei tudo e ontem desabei. É, meu histórico não é muito bom.

Enquanto sentia tudo isso, lembrei-me do trabalho de uma fotógrafa chamada Elinor Carucci em que ela retrata o seu sofrimento, acredito, após um ferimento na coluna. Eu, particularmente, acho que retratar a próprio dor é algo muito complicado, mas Elinor fez isso de forma tão íntima, que eu consigo compreender a profundidade do seu sofrimento e sentir com ela.

Certa vez, li que é o sofrimento o sentimento capaz de unir as pessoas, é na dor que nos conectamos com o outro verdadeiramente. Será que estamos então perdendo a capacidade de prestar atenção no próximo, ignorando seus sinais de sofrimento ou será que cada vez mais estamos aprendendo a esconder nossos sentimentos mais tristes? Afinal, quem gosta de ficar perto de gente chorando, mesmo que por dentro? Somos obrigados a ser felizes o tempo todo.

Eu queria alguém para compreender o quanto estava difícil pra mim, sem me julgar, sem falar que eu deveria é agradecer por tudo o que eu tenho. Como não encontrei, eu gosto de olhar para Elinor, mesmo que a dor dela fosse física, é como se eu me encontrasse na dor dela e como se ela entendesse o que eu sinto.

 

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Pain 5, 2003, Elinor Carucci

 

Veja a série completa aqui.

Fotografias não tiradas

Numa das minhas andanças por artigos de fotografia, acabei encontrando uma resenha bem simples sobre um fotógrafo que fez um livro descrevendo as fotografias que ele não tirou. Acabei passando e não peguei o nome dele nem do livro, mas essa coisa de fotografias não tiradas anda me perseguindo o tempo todo.

Nem todas as fotografias são tiradas para que todos as vejam, algumas, são tiradas para ficar apenas na memória de quem (não) a tirou.

No meu caminho para o terminal de ônibus há uma placa de “pare”, junto com ela, no mesmo buraco há um pezinho de hibisco. Sempre que eu passava por lá, o pezinho estava todo florido. Lindo. Vou registrar, mas não hoje, porque tem gente na rua. Não hoje porque tô com pressa. Não hoje.

Quando decidi tirar a fotografia, podaram as flores.

Também no meu trajeto, descobri uma porta, daquelas de comércio, sabe. Ela era amarela e, bem no meio, estava escrito “garagem” em letras de estêncil. Um charme. Agora não posso registrar esse achado porque vão me achar louca. Amanhã eu tiro.

No outro dia, pintaram a porta.

Ainda no meu caminho, bem na esquina da avenida, tem uma casa antiga. Pelos portões de grade de ferro, as folhagens saltam e invadem majestosamente a calçada. Vez ou outra aparece umas florzinhas azuis, mas não é necessário, os galhos são graciosos os suficientes. Todos os dias me apaixono. Hoje desci do ônibus decidida a fotografar.

Cortaram os galhos.

Quero contar que assisti ao documentário “A Fotografia Oculta de Vivian Maier”

Primeiramente, gostaria de dizer que eu senti muita inveja do moço que descobriu as fotografias de Vivian Maier, não pelo valor (talvez valor histórico), mas pelo fato de ter milhões de coisas para catalogar, organizar e ai, meu coração, investigar, pesquisar e ir atrás de dados.

Dito isso, posso começar a falar sobre o documentário.

Self-Portrait, 1955, Vivian Maier

Decidi baixar o documentário quando vi a lista de indicados ao Oscar e tinha fotografia e mulher incluídos no assunto. Entretanto, se a história em si de Vivian Maier não fosse interessante por si só, esse documentário estaria agora no limbo dos meu vídeos começados e não terminados. Ele tem um quê de amador que até encanta no começo, mas, com o tempo, deixa com a pulga atrás da orelha, porque parece esconder uma certa pretensiosidade tanto na parte de fama em que John Maloof, o descobridor, vem a adquirir quanto na formação da personagem de Miss Maier.

Eu acho engraçado essa coisa de resgatar a memória de alguém que não conhecemos a partir de relatos de outras pessoas, porque penso que nossas lembranças sempre escondem ou acrescentam algo, talvez nunca falamos a verdade ao se tratar de alguém – não pelo fato de não querer e sim, porque é algo involuntário.

1959

Apesar disso, como eu ia dizendo, a história dessa mulher é realmente encantadora! John Maloof é um historiador que procurava fotos antigas da cidade de Chicago, e, num desses leilões de tralhas, arrematou um lote com milhares de negativos. Não tinha nenhuma fotografia que o interessasse, então deixou de lado por um tempo. Após alguns anos voltou a remexer e, mesmo sem muito entender de fotografia, sabia que aquele era um achado e tanto! Pesquisou o nome que constava no lote, não tinha nenhuma referência a Vivian Maier no google, a não ser, por uma atualização recente: a certidão de óbito. Com isso, Maloof conseguiu contato com aqueles citados na certidão. Começa aqui uma grande investigação.

1953

Maier era babá e sempre estava com uma câmera no pescoço. Fotografava tudo ao seu redor e não mostrava isso a ninguém, muito menos revelava os filmes. Era um prazer só seu. Assim como acumular coisas. Talvez quisesse contar histórias através de sua fotografia e de seus pertences, deixando um relato sobre o mundo ao seu redor para que fosse descoberto após sua morte . E é interessante pensar que ela não se formou em escolas de arte, e vai saber se ela conhecia ou estudava obra de grandes fotógrafos ou quanto conhecimento ela adquiriu sobre técnicas e câmeras, por exemplo, o que se sabe é que ela apenas fotografava. E o fazia com uma sensibilidade ímpar.

1956

O que me intrigou durante todo o documentário é o que a levou a comprar uma câmera, gastar seu dinheiro com filmes e nunca mostrar isso a ninguém? Qual era a sua motivação se ela não admirava o trabalho depois de pronto? E qual era a relação dela com ela mesma? Por que ela guardava tantas “memórias”, como jornais, tickets, comprovantes? Por que tantos auto-retratos? Por que nunca formou uma família?

E, por fim, ao conhecer mais de suas fotografias, eu poderia dizer que se não fossem os relatos do documentário de quem conviveu com ela e os seus auto-retratos eu não acreditaria que ela tivesse existido, porque é essa a impressão que as fotos me passam. É como se ela estivesse naquele lugar, mas, mesmo com uma câmera na mão, ninguém a notava, é como se, mesmo com o seu tamanho todo, ela não existisse. Quem sabe essa não era a sua maior vantagem?

1955

Para saber mais:

– Documentário “A fotografia Oculta de Vivian Maier”, John Maloof, 2013.

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