fotografias não tiradas #01

Não estava calor. Também não estava frio. Era como se de fato o tempo estivesse parado para que o momento pudesse ser registrado. De onde eu estava, eu via todo o quintal e todas as pessoas presentes na casa. Do meu lado esquerdo, na churrasqueira, estava o marido da minha prima. A fumaça não subia a chaminé como deveria e inundava o quintal com aquele cheiro bem particular. Do telhado entrava um fecho de luz do sol mais forte que a iluminação natural da tarde de um sábado. Essa luz evidenciava a fumaça que se espalhava, fazendo com que tudo parecesse não mais que um sonho. Do outro lado, na rede, minha prima abraçava o seu filho mais velho e eles riam. Ao lado, na cadeira de balanço, meu padrinho relaxava ao som da música caipira e seu fiel escudeiro, um pinscher, tirava um cochilo. Nas outras cadeiras, minhas outras primas e minha madrinha conversavam e riam. Meus primos menores corriam em câmera lenta. O vento vira e mexe balançava as bexigas. Nesse momento, é como se todos os problemas tivessem desaparecido, tal como a fumaça que saía da churrasqueira e, aos poucos, se desfazia. Nesse exato momento, que não durou mais do que alguns segundos, tudo parecia perfeito, tudo se encaixava, inclusive eu. Me senti parte daquilo e isso me fez muito bem. Não existe nenhuma fotografia e nenhuma postagem desse recorte no tempo, mas, ele estará para sempre comigo e eu sempre me lembrarei disso com um sorriso.

Fotografias não tiradas

Numa das minhas andanças por artigos de fotografia, acabei encontrando uma resenha bem simples sobre um fotógrafo que fez um livro descrevendo as fotografias que ele não tirou. Acabei passando e não peguei o nome dele nem do livro, mas essa coisa de fotografias não tiradas anda me perseguindo o tempo todo.

Nem todas as fotografias são tiradas para que todos as vejam, algumas, são tiradas para ficar apenas na memória de quem (não) a tirou.

No meu caminho para o terminal de ônibus há uma placa de “pare”, junto com ela, no mesmo buraco há um pezinho de hibisco. Sempre que eu passava por lá, o pezinho estava todo florido. Lindo. Vou registrar, mas não hoje, porque tem gente na rua. Não hoje porque tô com pressa. Não hoje.

Quando decidi tirar a fotografia, podaram as flores.

Também no meu trajeto, descobri uma porta, daquelas de comércio, sabe. Ela era amarela e, bem no meio, estava escrito “garagem” em letras de estêncil. Um charme. Agora não posso registrar esse achado porque vão me achar louca. Amanhã eu tiro.

No outro dia, pintaram a porta.

Ainda no meu caminho, bem na esquina da avenida, tem uma casa antiga. Pelos portões de grade de ferro, as folhagens saltam e invadem majestosamente a calçada. Vez ou outra aparece umas florzinhas azuis, mas não é necessário, os galhos são graciosos os suficientes. Todos os dias me apaixono. Hoje desci do ônibus decidida a fotografar.

Cortaram os galhos.