inventário de lembranças ruins

Quando eu estava no jardim de infância a diversão das crianças era juntar as sementes que caíam das árvores no parquinho. Algumas era mais raras que outras. Certa vez eu tinha conseguido encontrar várias daquelas raras e saí contente mostrando para meus amiguinhos. Uma menina mais velha ficou sabendo e pediu para eu mostrar minhas sementes, eu disse que não, ela pediu por favor e eu abri minhas mãos para mostrar: ela pegou todas e saiu correndo.

Quando eu era criança minha família era muito mais unida. Num desses típicos almoços em família, uma prima mais velha teve a ideia de ir tomar sorvete numa sorveteria longe de casa, não por acaso, a mais famosa e mais cara da cidade. Foram todos os primos – até parece que eu ia perder boca livre. Nunca tinha ido lá, tinha muitas opções de sorvete nem sabia qual pedir. Optei pelo clássico chocolate. Falei timidade para a prima mais velha qual sabor queria e ela simplesmente olhou pra minha cara e disse que todos os sorvetes seriam iguais. Até aí tudo bem. Mas, o sabor era ruim para uma criança de seis ou sete anos – talvez até para um adulto, não lembro o nome mas era branco com flocos crocantes. Eu não gostei daquele negócio e falei para a prima que eu não tinha gostado. Ela tirou da minha mão, falou pra eu não comer mais e que eu era mal-agradecida porque aquele era o melhor sorvete da melhor sorveteria da cidade. Nunca mais fui naquela sorveteria.

Também com seis ou sete anos, eu estava na casa da minha madrinha quando uma das minhas primas estava se desfazendo de um fichário, como sempre fui apaixonada por papel, eu disse que eu queria ficar com o fichário, mas, minha prima também mais velha, disse que eu não poderia ficar com o fichário. Eu chorei e fiquei sem o fichário.

Certa vez eu estava na casa de uma prima de muito dinheiro. Lá tinha uma televisão enorme e tv a cabo e eu nem sabia o que tudo isso significava. Então um outro primo disse que para assistir ao filme a gente teria que comprá-lo porque era muito caro e era preciso fazer vaquinha. Eu era criança e tinha dois reais. Eu dei os dois reais. Era tudo mentira: não precisava pagar pra assistir.

Eu tenho um defeito no pé. Um dia duas meninas viram e não quiseram mais brincar comigo por causa disso. Eu tinha nove anos.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s