todos os amores vão fracassar

Master of None é, de longe, uma das melhores séries da atualidade. Aziz Ansari consegue tratar de temas polêmicos de forma leve mas, sem deixar de ser pertinente e inclusivo. É possível sim ser engraçado sem ofender outras pessoas. Assim como na primeira temporada, devorei a segunda em menos de três dias, porém, essa foi mais difícil de digerir.

dev e francesca no carro rindodev no carro sozinho e triste

[spoiler alert]

Por um momento, eu me vi na pele de Francesca: vive numa cidade do interior, namora o mesmo rapaz há muitos anos desde os seus dezoito anos e ele está tão envolvido em outros projetos que, às vezes, alguma comemoração passa despercebida ou está tão na rotina, que tudo passa despercebido porque as coisas são assim mesmo. De repente, aparece o Dev que vem de uma cidade conhecida no mundo inteiro, muito mais avançada que a pacata cidade de Francesca e coloca o mundo dela de ponta cabeça. Ao mesmo tempo em que ele joga todos os problemas do relacionamento de Francesca na cara dela, ele se apresenta como a solução desses problemas.

Isso me incomodou. Muito.

Todos os amores estão fadados ao fracasso. Assim como o destino das flores é morrer. A diferença é como você vai cuidar para que isso não aconteça. Tem que saber adubar, regar, saber a hora de colocar no sol ou de tirar as folhas murchas.

Francesca estava num relacionamento estável que podia durar toda a vida porque era exatamente assim que eram as coisas pra ela. Dev estava acostumado ao movimento, a sair para curtir, a experimentar coisas novas exatamente porque a cidade dele proporcionava tudo isso. Pregar uma vida de curtição atrai qualquer um, mas, o que garante que um relacionamento durará pra sempre nesse estilo? Nada garante. Porque assim como rotina é desgastante, uma vida louca também é.

De repente, Francesca se vê no meio de dois caras: um apresenta segurança, o outro, uma vida nova em outro país. Muita presunção do Dev achar que ela deveria ficar com ele só porque ele se apaixonou – quem confirma que não é temporário? Terminar um relacionamento de anos é muito dolorido para simplesmente acabar. São muitos desapegos sentimentais para acontecer. Ao mesmo tempo que é muito convencimento do noivo achar que Francesca seria dele pra sempre, sem que ele precisasse dedicar-se a ela. Por mais que eu tenha me imaginado no lugar de Francesca, definitivamente, não queria estar no lugar dela porque não existe resposta correta: é mais fácil consertar um amor fracassado ou começar um novinho em folha?

sobre ser grata

falando

Dias atrás, eu estava com vontade de comer macarrão com molho de tomate caseiro e queijo ralado. Não tinha em casa e não estava dando certo de passar no mercado – mais por preguiça do que por falta de tempo. Então, decidi deixar a preguiça, passei no mercado, comprei tudo o que precisava e, finalmente, comi a minha desejada macarronada. Enquanto eu comia, só conseguia pensar no quanto eu sou sortuda por poder comprar a comida que eu desejava, por poder cozinhá-la e por poder dividi-la com meus pais.

Há meses eu não tinha a chance de pegar um pão quentinho na padaria e, dias atrás, consegui realizar esse feito: meu Deus! como aquele cheiro é maravilhoso! E, enquanto eu passava a manteiga no pão, só conseguia pensar no quanto eu sou sortuda em poder comprar pão e uma manteiga de qualidade.

Eu não tenho tudo o que eu gostaria. Talvez um emprego em que meus esforços sejam reconhecidos me faça mais feliz. Ou conseguir um título de mestrada poderia me deixar mais realizada. Quem sabe uma viagem pela Europa ou um guarda-roupa de blogueira para não ter que repetir incansavelmente as mesmas camisetas de banda e a calça de moletom rasgada. Quem sabe uma casa com jardim e um cachorro ou mais livros ou uma câmera nova não tão pesada quanto a minha. Talvez tudo isso poderia me fazer mais feliz, mas, não posso negar todas as outras coisas que a vida me deu.

Eu posso comprar o que eu sentir vontade de comer, tenho uma cama confortável e mais livros do que posso ler. Tenho pais, irmã, um namorado incrível e sogros que são ótimos pra mim. Eu posso acordar, levantar e caminhar e pegar um ônibus para o trabalho que não me paga mal e é algo na minha área de formação. Eu posso chegar em casa e assistir a Netflix e agora posso fazer aulas de inglês. E eu vou ganhar uma rede!

Sempre haverá motivos para agradecer e ter isso em mente deixa a vida mais leve. Também poderá existir dias em que não vai ser fácil manter essa filosofia, porém, é exatamente nesses dias que a gente tem que manter o pensamento firme e, simplesmente, agradecer.

quando finalmente voltará a ser como nunca foi

falandosobrelivros

Quando peguei esse livro pra ler, tinha acabado de sair de duas biografias praticamente consecutivas: uma bem pesada, que é a da Clarice e uma bem leve, que é a da Rita Lee. Por mais que esse livro não seja uma biografia verdadeira, ele tem as características de uma, com detalhes ricos e muito próximos da realidade.

Ao começar a história, já vamos procurando o fio condutor da trama – algo comum em muitos leitores, afinal, ninguém gosta de ficar perdido na leitura, ainda mais num livro que começa misterioso e possui uma capa tão convidativa. Mas, mesmo formulando mil e uma teorias, ao chegar no segundo capítulo tudo cai por terra e, ainda atordoada, é possível perceber que se trata de um livro de memórias. E, a cada caso contado vamos nos aproximando mais e mais da família de Joachim, o narrador em primeira pessoa.

Apesar de descrever poucas características das personagens – a não ser do pai – a imagem de todos da casa vai se formando como se, realmente, eles existissem. Mas, será que não existem mesmo? Cada dor, cada felicidade, cada momentos juntos e até os momentos de burrice ou de fúria se assemelham a qualquer outra família. Talvez, seja por isso que o ator suprime algumas características: assim, podemos ter uma construção particular.

Assim como na vida, o livro passa por partes lentas, em que a leitura se arrasta e dá vontade de desistir, tal qual uma segunda-feira mal dormida ou um período sombrio. Porém, também há partes em que a leitura flui rapidamente, como um domingo de sol ou aquela viagem desejada. Outra característica marcante é o fato de que, muitas vezes, não há explicação para o que aconteceu exatamente porque, na vida, existem coisas que simplesmente acontece e não há o que explicar. Tomamos decisões sem sentido, contrariamos a razão e, nem sempre esclarecemos os motivos, porque nem sempre há motivos. Isso é tão explícito no livro que acredito ter feito muita gente desistir da leitura, sempre queremos saber de tudo, mas tudo é muito coisas para se saber. As coisas simplesmente acontecem. Ao ler esse livro, ficou ainda mais claro na minha cabeça que é assim que a vida funciona. Só nos resta aceitar.

Não, o livro não é real, mas bem que poderia ser. Assim como a vida de cada um poderia ser um livro. A linha que separa a ficção da realidade é muito tênue.


Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi
Joachim MeyerHoff
352 páginas. 2016