depois a louca sou eu

falandosobrelivros

Meu contato com a Tati Bernardi não ia além de algumas frases aleatórias na internet (que podem ser dela ou não) e um ou outro texto aleatório. Não sei exatamente o que me chamou a atenção para o seu último lançamento, “Depois a Louca Sou Eu”, talvez tenha sido a capa, talvez o resumo do livro alertando sobre o fato de ela relatar suas crises de ansiedade (eu estou procurando muito sobre isso nesse momento) ou talvez por estar procurando uma leitura leve e esse livro apareceu primeiro. Não sei.

Mas, a leitura leve eu errei, ficou para o próximo.

Eu sai de um livro que fala sobre crises que foi totalmente raso (sim, o da Jout Jout) para cair em um super denso que é o da Tati Bernardi.

Os primeiros capítulos são pesados, ela narra as suas crises, todas elas, e todos os possíveis motivos que levam a crise. Nesse momento, ou você se aproxima dela se identificando com os sintomas ou tendo compaixão ou abandona de vez o livro. Por mais que ela dê os respiros e transforma situações trágicas em algo relativamente cômico, não é suficiente dissipar toda a tensão das primeiras páginas. Com o passar da leitura, vai ficando mais leve, porém, ainda não sei se ela que maneirou na escrita ou se eu me acostumei.

Há uns anos, fui diagnosticada com começo de depressão e é bem estranho isso porque não me levaram para um terapeuta, me deram remédios que não adiantaram muito. Eu parei de tomar porque não queria mais, porém, nunca voltei a ser eu. Em minhas memórias, tenho uma visão de uma Letícia espontânea, sem medo de falar o que pensa, que vai ao público sem problemas, e que se arrisca sem medo, só que hoje eu não sou assim, há uns anos não sou mais assim e não sei dizer exatamente quando tudo mudou. Hoje eu tenho manias absurdas, medos sem explicação, crises só de pensar em mudar a rotina e o tempo todo eu me ouço falar que está tudo bem comigo que vai passar. Ninguém compreende muito bem essa situação porque é algo tão íntimo e a gente se vê tão sozinha. Possivelmente eu preciso de um acompanhamento, mas não tenho condições de pagar (e as pessoas ao meu redor não acreditam muito nisso), então a gente vai se virando como pode.

A forma como a Tati Bernardi expõe me aproximou muito dela, e eu percebi que aquela vez que eu vomitei na porta inteira d’O Boticário no meu primeiro dia de trabalho não era virose, era uma crise de ansiedade; que não é normal meu estômago ir parar no chão toda vez que eu precise falar com alguém ou dirigir, por exemplo; que se perder é normal e que eu não preciso ficar revisando o caminho na minha mente o tempo todo sem aproveitar o passeio porque só a ideia de me perder me causa enjoos. Ler algo tão abertamente (tá, e um pouco exagerado, às vezes, como ela mesma coloca) fez com que eu não me sentisse tão sozinha, que cada um tem a sua loucura e tudo bem. Talvez eu me sinta muito mais à vontade para compartilhar minhas neuras e aliviar um pouco tudo aqui dentro.

Depois da leitura, por acaso, encontrei a entrevista que ela deu para o Jô e, quem a vê, ali, tranquila e espontânea, não imagina o que se passa por dentro dela. O mesmo comigo, olhando de fora, a minha pose é outra, mas por dentro, estou corroendo meu estômago – isso quando ele não está fazendo cosplay de máquina de lavar, claro.

Se você nunca teve problemas ligados a ansiedade ou depressão, talvez não se identifique com o livro, por mais que ainda tenha uma comicidade nos relatos (depois que passa até parece engraçado), porém, se você os tiver, a leitura será como um alívio.


Depois a Louca Sou Eu
Tati Bernardi
Companhia das Letras

3 comentários em “depois a louca sou eu”

  1. nossa Letícia, que corajoso esse seu relato! minha intenção ao começar a newsletter do drops é exatamente me expôr bastante e mostrar que todos têm suas neuroses e loucuras – eu acho que só quando a gente mostra nossa vulnerabilidade é que conseguimos criar conexão com os outros.
    eu sou uma ansiosa crônica e me enxerguei em algumas situações que você relatou. nunca tinha pensado em escrever sobre isso porque achei que era só alguma bobagem minha, com a qual eu tinha que aprender a lidar. mas me deu um alívio ver que não sou a única – e acho que mais pessoas podem se sentir dessa forma, como você se sentiu ao ler o livro da Tati. muito obrigada pela inspiração! vou usar isso em breve :*

    Curtir

    1. Sim! Quem tem depressão/ansiedade/sindrome do pânico acaba se sentindo muito sozinho, pq ngm ao redor consegue compreender, por isso aprendi que esses relatos são muito importantes, mesmo que a gente ache que é bobagem. É como vc disse: saber que não é a única dá um alívio e tanto!

      Claro, vou adorar! :*

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s