falta paixão

Das minhas poucas memórias de criança e adolescência, eu sempre me recordo do quanto eu era apaixonada pelas minhas ideias, acreditava piamente em mim e nas pessoas também. Sempre estava disposta à fazer algo para mudar o mundo e tinha certeza absoluta que eu seria alguém grande na vida. Eu acreditava que podia ser e fazer qualquer coisa. Acho que eu era uma mini-revolucionária.

Eu tinha filmes e livros preferidos, assim como atrizes, atores, música e cantores. Estavam todos na ponta da língua e sabia tudo sobre eles. Eu tinha ídolos e era apaixonada por eles. Hoje não. Já não consigo citar alguém por quem sou louca e admiro o suficiente, se me perguntar a minha música preferida eu não vou saber responder, não por ter muitas, pior, por não ter nenhuma.

Hoje eu me sinto meio vazia. Não tem nenhum cantor por quem eu choraria se eu fosse ou não fosse ao show. Hoje tanto faz. Se as pessoas não acreditam no meu trabalho, tudo bem, eu também já não acredito tanto assim. Se não está passando a série que eu gosto, sem problemas, podemos ver isso que está passando mesmo.

Talvez essa não seja a expressão correta, mas, acho que agora o que me falta é paixão. Não sei em qual parte do caminho ela se perdeu de mim, só sei que ela faz falta nessa nova fase da minha vida. É como se tudo fosse cinza e a temperatura estivesse morna. É como se eu estivesse apenas vagando sem ter um sentido. De repente, me tornei uma pessoa passiva.

De repente, não sei mais quem sou.

A garota dinamarquesa

Adaptar um livro para um roteiro cinematográfico nunca é fácil, por mais que já exista a trama e as personagens, os conceitos são outros e é preciso ter em mente que o filme nunca será a tradução visual do livro – como muitos imaginam que deve ser. Enquanto o autor do romance pode inserir detalhes, enriquecendo a obra sem pensar necessariamente no tamanho final do livro, o roteirista deve estar atento ao tempo do filme, se muito longo, pode não atrair o público geral, por exemplo.

Ao ler o livro, tenho total liberdade para imaginar as cenas de acordo com o que o autor me informa e cada leitor cria esse mundo particular a partir das suas experiências. No filme, já está pronto, eu não tenho que criar nada, apenas apreciar os detalhes, por isso, muita gente se frustra ao ver adaptações no cinema. Muitas vezes é necessário pinçar apenas o importante e ir recortando e montando até ter um roteiro conciso. Em alguns casos há mudanças inexplicáveis na história (diria o fiel leitor), mas elas acontecem para dar maior fluidez ao script, claro, de acordo com os produtores do filme.

Particularmente, gosto muito de ler o livro e assistir a adaptação, analisar a diferença entre as duas obras e compreender as mudanças feitas (sim, não é à toa que minha matéria preferida era Roteiro e o meu primeiro roteiro foi uma adaptação de um conto de um amigo) e, para julgar prefiro utilizar outras questões como, por exemplo, se o sentimento do livro, permanece no filme; se a leitura é mais lenta e se o filme também é mais devagar; e o quanto o roteiro se reinventou (não acho que o filme deva ser uma cópia fiel ao livro, é uma adaptação, afinal).

Pronto, explicado meu ponto de vista, posso escrever sobre A Garota Dinamarquesa, o livro de David Ebershoff e o filme de Tom Hopper.

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Mas, ainda, antes de começar a escrever, preciso comentar que comecei a leitura com um pé atrás. Nas minhas leituras sobre Feminismo Radical, cai num texto que falava sobre o filme e acabei imaginando outra coisa sobre a obra. Ainda não sei muito bem o que achar sobre transexualidade, é um tema muito sensível, e, apesar do tema central ser exatamente esse, foram outras questões que acabei levantando durante a leitura e ao assistir ao filme.

A Garota Dinamarquesa não é uma história totalmente real, é semi-ficção, o autor se baseou em cartas enviadas para criar os diálogos e alguns acontecimentos na vida de Greta e Einar, como o filme é baseado nesse livro, ele também é semi-ficcional. A leitura é leve, o que foi uma grande surpresa, porque eu esperava algo mais arrastado, quando vi já estava totalmente imersa na história e, nos momentos em que não estava lendo, estava pensando na em Greta, Einar e em Lili, principalmente em Greta. A escolha por apresentar o passado das personagens aos poucos manteve o mistérios e a curiosidade em ler para saber mais e tornou possível a compreensão dos sentimentos de Einar.

Apesar da leitura leve, o texto é carregado de sentimento. As personagens principais são tão bem construídas e seus medos são tão bem colocados, que é impossível julgar as suas atitudes, a empatia seria a melhor reação. Embora muita gente, ao assistir ao filme, sentiu que Einar foi muito egoísta ao se transformar em Lili e Lili foi muito egoísta ao querer cada vez mais sua independência sem se importar com os sentimentos de Greta, no livro, esse sentimento é mais tênue, claro, também depende do ponto de vista do espectador/leitor. No começo, tive essa mesma sensação, mas, para que possamos nos libertar, é necessário ser um pouco egoísta, é necessário pensar em nossas necessidade, porém, isso não significa que Lili deixou de amar Greta, que sempre foi a mulher da sua vida, sua melhor amiga e sua inspiração. No filme, o amor de Einar e Greta parece ser daquele efervescente, caloroso, mas, não, o livro diz ao contrário, foi mais um encontro de almas do que algo carnal, não havia muito contato físico – e Greta sentia falta disso.

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O filme acompanha o sentimento de leveza do livro com uma fotografia espetacular, cores em tons pastéis e planos mais demorados, fazendo com que o espectador aprecie a imagem. Sou muito suspeita ao falar do filme porque se passa na década de 20, que é a minha década preferida, cheia de glamour, brilho, mulheres espetaculares e independentes. Greta é uma mulher típica da década de 20: buscava a sua independência, embora fosse de família rica, queria ser conhecida pelas suas pinturas e tinha uma visão a frente do seu tempo. Greta se apaixonou por Einar, que era seu professor na escola de artes na Dinamarca, porém, logo ela teve que retornar à Califórnia, deixando seu amor para trás. Fez o possível para retornar à Europa, tentou até mesmo um casamento, mas os planos não deram certo, ela teve que continuar nos Estados Unidos. Com o tempo, aprendeu a amar o marido, teve um filho com ele que, infelizmente, nasceu morto e, não demorou para que seu companheiro também viesse a falecer. Após a morte de seu marido, Greta finalmente voltou a Dinamarca e casou-se com Einar. O passado dela não é contado no filme, mas ajuda a entender a força que ela tinha. Por mais que ela viesse a sofrer com a transformação de Einar em Lili, foi graças a isso que ela se encontrou na pintura e atraiu olhares, caso contrário, talvez ela nunca tivesse a chance de mostrar ao mundo o seu talento. Greta e Lili se ajudaram mutuamente.

Cada vez mais envolvidos na trama, o filme nos leva a um fim trágico já esperado, a última operação não dá certo e Lili fica cada vez mais fraca até que seu corpo não aguentar. É interessante citar que no livro, o doutor responsável pela operação encontra ovários em Lili, então ele os recupera e propõe também o implante de um útero. O sonho de Lili era ser mãe, por isso aceita a ideia, mesmo sendo contrariada por Greta que não queria permitir que a fizesse pois já temia o pior. Foi nessa operação que Lili não resistiu. Não poderiam ter colocado melhor ator que Eddie Redmayne no papel de Einar/Lili, apesar das críticas por ele ser cisgênero, não consigo imaginar qualquer outro ator no lugar, ele foi realmente incrível e não consigo encontrar palavras para descrever, apenas lágrimas. Eddie e Alicia Vikander foram tão profundos quanto as personagens do livro, conseguiram mostrar todo o sentimento contido na história deles. Acredito que a adaptação do livro A Garota Dinamarquesa foi importante não só por levantar o debate sobre a transexualidade e o identidade de gênero, mas também por trazer à tona o trabalho da grande pintora que foi Greta Waud.

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Sobre fins

É engraçado como nós não estamos preparados para lidar com o fim. Bem, pelo menos eu não estou. E é engraçado como nesse começo de semana eu tive que lidar com vários de uma vez.

O primeiro foi logo pela manhã de segunda, quando abro o email do trabalho e dou de cara com a notícia de que uma cliente havia falecido, foi uma parada cardíaca, e quem me avisava era o seu marido. A encomenda estava pronta há uns 15 dias, estava aguardando o retorno dela para combinar o restante do pagamento e envio da peça. Ela morreu há 20 dias, por isso não me retornava. Meus emails estavam se acumulando junto aos outros, talvez propagandas, e, nesse momento, não fazia mais diferença alguma. A morte é sempre um choque de realidade.

Ainda na segunda, fiquei sabendo que uma pessoa muita querida por todos havia falecido no último fim de semana. Meu contato com ela era pouco, mas, ainda sim, sabia o quanto era uma mulher forte e digna de admiração. Sua pequena filha é um exemplo, com apenas 13 anos já é ativa socialmente, luta pelo o que acredita e escreve poesia; alguns dias antes fora escolhida vereadora mirim e estava muito feliz pela conquista. A vida é mesmo uma caixinha de surpresa, quando menos se espera, o nosso chão balança e abre-se um abismo sob nossos pés.

Por mais que as mortes não fossem tão próximas a mim, elas sempre impactam porque esquecemos o quão frágil é a vida e porque acreditamos piamente que tudo vai ser igual amanhã – apesar de desejarmos mudanças.

Ontem, finalmente, dei o fim ao meu martírio de tirar a habilitação. Digo isso porque toda vez que sentava ao volante nas aulas, meu estômago ia no chão e revirava, minhas pernas tremiam. Ontem foi o dia de finalizar esse ciclo, passei a manhã toda me enganando dizendo que não estava ansiosa, mas a gente não consegue enganar o que o corpo sente. Por mais que eu repetisse insistentemente “não estou nervosa, hoje é o meu dia, não estou nervosa, hoje é o meu dia”, meu estômago estava enjoado o bastante para provar o contrário. Consegui realizar toda a prova (muito bem, diga-se de passagem) e fim, só esperar a minha carta chegar. Agora inicia-se outro ciclo: o de dirigir sozinha, sem um instrutor para me auxiliar. Que eu consiga superar a minha ansiedade!

Logo depois da minha prova, ao voltar ao trabalho, recebi a notícia de que meus serviços não seriam mais necessários, a vida de empregada assalariada chegara ao fim. Foi de repente, sem aviso prévio, sem chance de terminar o expediente. Foi o tempo de juntar as minhas coisas e sair, dando um tchauzinho rápido. Estava tão feliz por conseguir passar no exame prático e, quando dei por mim, estava triste por perder um emprego – pior, por não ter me preparado para perdê-lo. Não gosto quando as coisas acontecem assim tão rápido, gosto de me organizar, de saber para onde vou, anotar o que for possível, me preparar, e eu não tive tempo de captar tudo o que acontecia.

Foram fins diferentes, mas, pode até parecer clichê (e é), todos dizem uma única coisa: a vida segue. As pessoas morrem, perdem empregos, encerram ciclos e a vida continua, um dia após o outro e, quando acharmos que estamos no controle novamente, ela virá para mostrar que ninguém pode controlá-la.

Um pouco de cafuné, um dia bem dormido e pronto, hora de colocar tudo no lugar para recomeçar.