Quero contar que assisti ao documentário “A Fotografia Oculta de Vivian Maier”

Primeiramente, gostaria de dizer que eu senti muita inveja do moço que descobriu as fotografias de Vivian Maier, não pelo valor (talvez valor histórico), mas pelo fato de ter milhões de coisas para catalogar, organizar e ai, meu coração, investigar, pesquisar e ir atrás de dados.

Dito isso, posso começar a falar sobre o documentário.

Self-Portrait, 1955, Vivian Maier

Decidi baixar o documentário quando vi a lista de indicados ao Oscar e tinha fotografia e mulher incluídos no assunto. Entretanto, se a história em si de Vivian Maier não fosse interessante por si só, esse documentário estaria agora no limbo dos meu vídeos começados e não terminados. Ele tem um quê de amador que até encanta no começo, mas, com o tempo, deixa com a pulga atrás da orelha, porque parece esconder uma certa pretensiosidade tanto na parte de fama em que John Maloof, o descobridor, vem a adquirir quanto na formação da personagem de Miss Maier.

Eu acho engraçado essa coisa de resgatar a memória de alguém que não conhecemos a partir de relatos de outras pessoas, porque penso que nossas lembranças sempre escondem ou acrescentam algo, talvez nunca falamos a verdade ao se tratar de alguém – não pelo fato de não querer e sim, porque é algo involuntário.

1959

Apesar disso, como eu ia dizendo, a história dessa mulher é realmente encantadora! John Maloof é um historiador que procurava fotos antigas da cidade de Chicago, e, num desses leilões de tralhas, arrematou um lote com milhares de negativos. Não tinha nenhuma fotografia que o interessasse, então deixou de lado por um tempo. Após alguns anos voltou a remexer e, mesmo sem muito entender de fotografia, sabia que aquele era um achado e tanto! Pesquisou o nome que constava no lote, não tinha nenhuma referência a Vivian Maier no google, a não ser, por uma atualização recente: a certidão de óbito. Com isso, Maloof conseguiu contato com aqueles citados na certidão. Começa aqui uma grande investigação.

1953

Maier era babá e sempre estava com uma câmera no pescoço. Fotografava tudo ao seu redor e não mostrava isso a ninguém, muito menos revelava os filmes. Era um prazer só seu. Assim como acumular coisas. Talvez quisesse contar histórias através de sua fotografia e de seus pertences, deixando um relato sobre o mundo ao seu redor para que fosse descoberto após sua morte . E é interessante pensar que ela não se formou em escolas de arte, e vai saber se ela conhecia ou estudava obra de grandes fotógrafos ou quanto conhecimento ela adquiriu sobre técnicas e câmeras, por exemplo, o que se sabe é que ela apenas fotografava. E o fazia com uma sensibilidade ímpar.

1956

O que me intrigou durante todo o documentário é o que a levou a comprar uma câmera, gastar seu dinheiro com filmes e nunca mostrar isso a ninguém? Qual era a sua motivação se ela não admirava o trabalho depois de pronto? E qual era a relação dela com ela mesma? Por que ela guardava tantas “memórias”, como jornais, tickets, comprovantes? Por que tantos auto-retratos? Por que nunca formou uma família?

E, por fim, ao conhecer mais de suas fotografias, eu poderia dizer que se não fossem os relatos do documentário de quem conviveu com ela e os seus auto-retratos eu não acreditaria que ela tivesse existido, porque é essa a impressão que as fotos me passam. É como se ela estivesse naquele lugar, mas, mesmo com uma câmera na mão, ninguém a notava, é como se, mesmo com o seu tamanho todo, ela não existisse. Quem sabe essa não era a sua maior vantagem?

1955

Para saber mais:

– Documentário “A fotografia Oculta de Vivian Maier”, John Maloof, 2013.

Galeria on-line 

a intimidade de Nan Goldin

Filha de uma família judia, Nan Goldin nasceu em 1953 e logo aos onze anos já teve que conviver com o suicídio de sua irmã mais velha. Para não ter o mesmo fim, aos 14 decide sair de casa e morar com famílias adotivas. Com quinze anos, seu professor lhe dá uma câmera polaroid e é no ato de fotografar que ela se encontra.

Trixie on the cot, NYC – Nan Goldin, 1979

Fotografar se torna algo compulsivo, como se a câmera fosse extensão de seu próprio corpo. Nan não queria mais perder as memórias das pessoas que amava assim como, aos poucos, perdia As de sua irmã. Nan fotografava as pessoas que amava mas não num sentido voeyur, e sim como se estivesse junto com o fotografado, dividindo os sentimentos, contando a história de seus amigos juntamento com a sua própria.

Cookie at Tin Pan Alley, NYC – Nan Goldin, 1983

“Eu não quero ser suscetível a ninguém, com outras versões da minha história. Eu não quero mais perder a memória real de ninguém novamente.” (Goldin, 1986)

Gina at Bruce’s Dinner Party, NYC – Nan Goldin, 1991

Se eu fosse escolher uma palavra para definir a obra de Nan Goldin, com certeza seria sentimento. Todas as suas fotografias são rodeadas de diversos sentimentos, mas, principalmente o amor, nas mais diversas formas. Nan amou como ninguém todas as pessoas que passaram por sua vida, pois as transformou numa família.

Nan and Brian in bed, NYC, Nan Goldin, 1983

“The Ballad of sexual Dependency”, sua obra mais importante, é um diário visual que mostra a busca incessante de Nan que tenta descobrir porque a relação entre homem e mulher é tão complicada e o que causa essa dependência de ambas as partes. Ela própria vivia um amor interdependente. Um amor, que chegou ao limite e teve graves consequências:

“Uma noite, ele me agrediu seriamente, quase me cegando. Ele queimou um certo número de meus diários. Descobri mais tarde que ele os tinha lido. Confrontando a minha normal ambivalência, havia traído sua noção absoluta de romance. Seu conflito entre seu desejo de independência e seu vício no relacionamento havia se tornado insuportável.” (Goldin, 1986)

Nan one month after being battered – Nan Goldin, 1984

Após esse episódio, Nan registrou uma de suas fotos mais famosas “Nan One Month after being battered”. Podemos perceber que mesmo depois de um mês, os hematomas ainda eram bem evidentes. Talvez fosse necessário para Nan registrar esse momento, não como prova de um crime, mas como prova da consequência que foi amar alguém.

Self-portrait, Laughing – Paris – Nan Goldin, 1999

Acredito que toda a vida de Nan foi permeada de muitos sentimentos tristes, e esse ar melancólico é visto em grande parte de suas fotografias. E isso é o que me faz aproximar de sua obra, acho que porque nos reconhecemos na tristeza, poque assim como o amor, a dor e o sofrimento também são universais, afinal, é nessas condições que nos tornamos mais humanos.


Para saber mais:

O espelho de Nan Goldin
Retratos de um relacionamento: Nan Goldin e a fotografia da vida íntima
Da porta pra dentro: Nan Goldin, Cia de Foto e as poéticas da intimidade na fotografia contemporânea

Sophie Calle e seus jogos

Sabe aquela sensação de “eu queria ter feito isso!”? Então, é isso o que eu sinto quando vejo os trabalhos de Sophie Calle. Nascida em 1953, na França, Sophie não é propriamente uma fotógrafa, porém, se utiliza desse formato  para registrar suas performances, como uma ideia inicial de seus projetos, logo todo esse conteúdo se transforma em instalações que, mais tarde, torna-se livros. É interessante pensar como ela consegue transpôr sua obra em diversos formatos.

L’Hôtel – Sophie Calle, 1981

As características de seu trabalho sempre permeiam entre o real e a ficção, o exibicionismo e o voyeurismo, a performance, a audiência e o anônimo. Assim como o Jeff Wall, ela recria as cenas do cotidiano, mas, ao invés de montar fotografias, ela o faz criando jogos e brincando com o real. Em um dos seus trabalhos, L’Hôtel, Sophie aceita trabalhar de camareira em um hotel e, nas horas vagas, entrava nos quartos e fotografava objetos pessoais e cestos de lixo, assim como anotava algumas observações. Através desses registros, ela tentava recriar os hábitos e personalidade dos hóspedes, ela acaba então, criando personagens a partir do anônimo.

“A imagem e a escrita são os elementos necessários para ela compor suas histórias que nos falam de experiências pessoas, de situação que recriam a vida cotidiana, dos outros e de si mesma, explorando as fronteiras entre o real e o ficcional, a experimentação e a invenção” (Silva, Valdete. 2008).

Outro jogo que Sophie faz é em parceria com o escritor Paul Auster, em seu livro Leviatã, no qual ele cria uma personagem chamada Maria que é inspirada na artista. No livro, ele descreve ações que a própria Sophie fez na vida real, como a do hotel, por exemplo, mas também cria algumas, que Calle resolve fazer na vida real, tal como um regime monocromático: em cada dia da semana uma cor, e só pode se alimentar com alimentos dessa determinada cor.

L’Obéissance – Sophie Calle, 1998

O que me encanta na obra de Sophie é essa brincadeira que ela faz com o real, transformando-o em ficção. São coisas banais do dia-a-dia que pode nos contar muitas histórias, e o melhor, é que podemos imaginar com ela ao ver as fotografias ou ler seus relatos. Ela consegue trazer algo que é particular para o universal, o anônimo para conhecido e traz o que é conhecido para o anonimato.


Para saber mais:

A dieta cromática de Sophie Calle
E
ntre a memória e o esquecimento: o realismo da obra de Sophie Calle
Paul Auster e Sophie Calle: a vida como ficção
Sophie Calle e a arte fotográfica: a inventividade dos jogos

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